Logo na chegada a impressão é diferente. A Start You Up funciona em um galpão em Jardim da Penha, bairro povoado por estudantes universitários. Aliás, o galpão fica quase em frente à Universidade Federal do Espírito Santo e não por acaso. Ali está a efusão de ideias e sonhos que são combustível para esta aceleradora de empresas. Quem me recebe é um jovem com barba estilosa, bem diferente da tradicional, e com olhar vivo, sempre brilhante. Me diz educadamente que a pessoa que falaria comigo, André Fiorini, diretor de Marketing e Tecnologia da empresa, não pode comparecer e ele mesmo dará a entrevista. Logo depois ele oferece o cartão, que diz: Marcílio Riegert, CEO. O CEO é uma sigla em inglês que define o maior cargo administrativo de uma grandes empresa. É o cara que pensa e faz com que sejam executadas as diretrizes para que a empresa que já é grande, continue a crescer.
A Start You Up não é uma grande empresa. Mas a definição no cartão de visitas aponta para cima, para onde esses jovens querem chegar. E por falar em jovens, o CEO me conduz a uma sala de reuniões, onde será a entrevista. A sala fica bem no final do galpão que tem pé direito altíssimo e nenhuma divisória. No meio exato, duas fileiras de mesas com os dois lados aproveitados e transformados em baias, estações de trabalho onde operam as empresas que serão “aceleradas”. Por enquanto elas ainda não estão ali, mas é questão de tempo. São ao todo 60 posições, para abrigar representantes de 11 empresas que foram selecionadas em um processo extremamente concorrido.
Mais de 200 empresas concorreram a uma oportunidade de serem aceleradas. São empresas que lidam principalmente com tecnologia e informação no amnbiente da Internet e que podem fazer algo realmente inovador e sem precedentes no mercado. É o perfil exigido e cuidadosamente avaliado no processo de seleção. As selecionadas entram em um programa que inclui investimento, desenvolvimento dos produtos e inserção no mercado. E quem faz tudo isso é a Start You Up. “É um investimento de risco. Entramos com a meta de acelerar a empresa, tracioná-la no começo para que ela tenha força de ganhar o mercado e aparecer. Em troca, temos uma participação na empresa. Ao final deste ano pode não dar em nada, mas ao mesmo tempo a empresa pode deslanchar. Queremos escala. Não queremos que a empresa venda para 10, 20 ou trinta. Queremos que ela ofereça seus produtos para milhões de pessoas”, conta Marcílio Riegert.
Parece megalomania, pode até ser, mas o que a Start You Up faz é inovação das boas e aposta em um tipo de gestão desconhecido para nós, que pensamos o mundo com empresas tradicionais, que oferecem produtos físicos, serviços palpáveis e o salário fixo no fim do mês. “Para o processo de seleção tivemos inscritas empresas da Índia, de Portugal, de todo o mundo. Nosso mercado é o mundo. Para o que fazemos, pouco importa onde estamos, mas temos orgulho de sermos aqui do Estado e de sermos colocadas lado a lado de gigantes como a aceleradora da Microsoft, por exemplo”, conta com o mesmo brilho nos olhos o diretor de novos negócios Ricardo Tosi. Igualmente jovem e igualmente crente nas convicções que regem a Start You Up, Ricardo é dono de uma outra empresa, no ramo de móveis para escritório. Aliás, é só mais um perfil entre os sete sócios, cada um de uma área bem específica.
Uma vem da área de tecnologia, outro da construção civil, outro lidava com projetos sociais de empresas privadas, outro é investidor, outro atua na área de alimentação, mais um com e-commerce. Todos juntos colocaram no negócio R$ 1,2 milhão, sem perspectivas de retorno em curto prazo. Mas o que é curto prazo ou longo prazo para empresas que lidam principalmente com o mutante meio da Internet? Antes da resposta, nossa entrevista é interrompida por outro sócio que passeia pelo galpão sede da empresa com um notebook aberto em punho, com uma figura sorridente na tela. O sócio é Fernando Rivera, um cara que aparenta mais de quarenta e usa camisa, calça jeans e chinelos. Ele é arquiteto e tem passagem pelo Vale do Silício, meca da tecnologia mundial. O notebook está aberto porque ele apresenta, com a câmera do computador, o espaço para o interlocutor do outro ladoO homem barbudo e com sorriso extra-largo está no México. É o irmão que conhece a sede da Start You Up pela primeira vez.
Fronteiras não são um conceito muito respeitado na Start You Up. Não há parede e o galpão é por isso. Não é mesmo para haver paredes. Muito menos para negócios há qualquer tipo de barreira. “Trabalhamos 24 por 7 irmão. Esse é nosso horário. Até por causa do fuso horário, nossos telefones estão sempre ligados e atendemos a todos a qualquer hora. É o mínimo que podemos fazer. Quando a gente seleciona a empresa para ser acelerada, a gente quer ver sangue no olho e por isso também temos que ter sangue no olho para dar o suporte necessário para a empresa deslanchar. Eles têm que ver na gente a mesma disposição que eles têm para tocar o negócio”, conta Ricardo Tosi.
E para deslanchar em qualquer mercado, fica muito clara a importância que esses empreendedores dão para a informação. Informação é tudo no trabalho de acelerar e tracionar, como eles mesmos dizem, uma empresa. De posse de informações de mercado, de percepções do que o público quer, é possível apostar as fichas em empresas que tenham grande chance de dar retorno. “Um exemplo de empresa que vamos acelerar é a Baixou. Olha só a sacada dos caras. Você quer comprar um item qualquer, mas não está disposto a pagar R$ 2 mil, R$ 3 mil. O Baixou é um serviço que filtra e faz a pesquisa para você. É só cadastrar o item com o valor que você está disposto a pagar. Quando o item chegar àquele preço, o Baixou avisa o usuário, que então pode comprar. O que os caras ganham com isso? Um percentual da venda, acordado com as lojas que vendem o item. Agora temos que fazer esse serviço deslanchar, é o nosso papel”, explica Marcílio Riegert.
Quase chegando ao final da entrevista somos interrompidos mais uma vez, agora pelo filho do CEO, que tem problemas para operar um dos computadores que estão nas estações de trabalho. “Não sei muito o que fazer para te ajudar. Procura alguém que vai poder resolver”, diz o sócio para o menino de seis anos que veste um uniforme de escola da rede pública de Vitória. E na retomada de nossa entrevista, vem a pergunta: Onde vocês querem chegar? E a resposta é imediata”e típica de quem não tem uma resposta pronta: “Boa pergunta”. Mas a resposta existe e é bem definida e clara. “Em torno de cinco anos ser uma das maiores geradoras de negócios em aceleração de empresas e ser referência mundial. A gente quer ser diferente no mercado e fazer com que quem esteja com a gente também seja diferente. E já tivemos uma prova disso com o processo seletivo que abrimos e tivemos mais de 200 inscrições com gente da Índia, Estados Unidos e Portugal. Somos uma empresa nova e temos confiança no potencial porque logo no primeiro ano já tivemos aval do Governo Federal, que nos incluiu no programa StartUp Brasil. Também fomos selecionados pelo Google, como representantes aqui no Estado das plataformas de soluções para negócios da gigante mundial. Tudo isso nos coloca em pé de igualdade com as grandes do mercado”, diz empolgado o CEO Marcílio.
E para encerrar, vem a pergunta: “Vocês querem ficar ricos?”. A resposta pode até surpreender quem começa a ler este texto do fim para o começo. “Este não é o objetivo, mas seria uma boa consequência”, diz Ricardo Tosi. “Nós vamos gerar negócios aqui, vamos mostrar que uma empresa aqui do Espírito Santo é capaz de gerar negócios”, finaliza, com o mesmo brilho nos olhos, Marcílio Riegert.
Start You Up: www.startyouup.com.br