Dificilmente alguém nunca ouviu falar da “sublimação“, nem que seja aquele conceito da química aprendido na escola.
Aqui, porém, vamos falar de uma outra “sublimação”, aquela da qual nos fala Sigmund Freud quando formula um conceito muito importante para a psicanálise: o de “pulsão”.
Sublimação, um dos destinos da pulsão
Pois bem, a sublimação, para o pai da psicanálise, seria, dentre outros, um dos destinos da pulsão. Mas o que seria isso, a pulsão?
Em linhas gerais, ela seria o que está para o homem, para o ser que fala, como o instinto estaria para o animal, ou seja, é o que o rege.
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Contudo, a grande diferença é que o instinto tem um objeto definido, já dado pela filogênese, já a pulsão… lá no lugar desse objeto o que encontramos é um vazio, um buraco, ou seja, a prova de que a Natureza bem desamparou o humano – e por isso o somos – e, por conta disso, nunca sabemos, de antemão, “com que roupa, com que roupa eu vou no samba que você me convidou?”.
Isso quer dizer que nós, humanos, dependemos totalmente de um outro – tanto o mais próximo de nós quanto do plano que chamamos cultura – para que esta, a pulsão, no início da vida sem contorno e caótica, possa constituir seus trilhos para recortar, no mundo, um objeto para sua satisfação; sim, porque tudo o que ela visa é satisfazer-se.
Mas com que objeto, já que este não nos é franqueado pela Natureza? Por conta disso é que podemos nos satisfazer com as coisas mais estranhas e as mais sublimes ao mesmo tempo; mas vejam bem, jamais de forma total.
Toda satisfação é sempre parcial, e é isso o que sustenta a nossa humana condição desejante.
Talvez possamos considerar “estranha” toda forma de satisfação – podemos chamar também de gozo – que visa eliminar o vazio que nos habita, em torno do qual se articula nossa existência.
São elas, por exemplo, as diversas formas de adição: às drogas, lícitas ou ilícitas, às telas, ao jogo etc. Há, porém, outras que tendem mais a criar, contornar esse vazio que tentar preenchê-lo.
As diversas formas de sublimação
O grande psicanalista Jacques Lacan nos lembrará que Freud considerou a Religião e a Ciência como formas de sublimação, porém, a primeira visaria evitar esse vazio, e a segunda, tentaria expulsá-lo.
A terceira forma de sublimação, esta sim, por excelência, é aquela que, sem evitar, expulsar ou tentar preencher este vazio, como nos diz Lacan, se caracteriza, de uma forma ou de outra, por uma certa maneira, um certo modo de organização em torno deste vazio.
Por isso mesmo podemos dizer que ela cria a partir do vazio, ela cria mesmo um vazio, mas um vazio contornado, nos oferecendo, com generosidade, como um último véu diante do horror, seus belos/inquietantes objetos.
Este era o objetivo deste breve escrito, dizer que sublimar é preciso, pois a arte é de uma tal inutilidade necessária que não podemos passar sem ela!