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Com equipe de diretoras e orquestra de mulheres ópera “A filha do regimento” estreia em Vitória

A produção fará duas apresentações no Palácio Sônia Cabral

Foto: Oficina de Ideias

“Meninas vestem rosa e meninos vestem azul”. A frase que gerou polêmica reverbera na montagem da ópera “A filha do regimento”, do grupo Ópera Prima, que estará em cartaz nos dias 24 e 25 de agosto, no Palácio Sônia Cabral, em Vitória.

A obra, de Gaetano Donizetti (1840), conta a história de Marie, uma menina que foi abandonada ainda criança e criada pelo regimento francês. A jovem se apaixona por um tirolês, que também se torna soldado para casar com a moça. Em meio a isso, uma tia de Marie a encontra e decide levá-la com a intenção de educá-la como uma moça e assim arranjar um casamento mais satisfatório para jovem.

É dentro dessa trama que surgem vários questionamentos sobre gênero. Uma soldado vai se adequar aos padrões femininos da época?

“A montagem de A filha do regimento foi um grande desafio não somente pela dimensão operacional própria de uma ópera, mas, especialmente, porque trata de uma complexidade temática que afeta a mim, e as mulheres, de alguma forma. A luta pela ressignificação de padrões impostos ao universo feminino, através dos tempos, inspira coragem ao friccionar um texto escrito no século XIX à necessidade atualizada de combater ações e reproduções machistas no nosso cotidiano”, comenta a diretora cênica, Tamara Lopes.

Patricia Ilus, que é diretora artística da ópera e também interpreta a personagem Marie, aponta essa reflexão que é permitida na obra de Donizetti. “O contraste se dá entre o regimento, um ambiente não feminino, onde Marie foi criada, para um ambiente mais adequado para uma mulher na época, recebendo instruções bem claras do que é ser mulher dentro de uma sociedade formal. A parti daí a gente busca um questionamento”, considera.

O contexto sobre as mulheres também foi levando para os bastidores. A equipe de direção e de produção é formada só de mulheres, com objetivo de valorizar as artistas capixabas. Além de Patricia e Tamara a ópera conta com direção musical de Elaine Boniolo, regência da maestra Alice Nascimento, produção da Portal Produtora Cultural, das produtoras Luana Eva e Ludmila Porto e uma orquestra formada por mulheres, que ao todo 18 musicistas fazem parte.

“Para mim é uma responsabilidade muito grande a regência dessa ópera. Não só pelo tamanho e importância da obra, mas também pelo significado que tem para o nosso estado. Aqui no Espírito Santo nunca antes uma mulher teve essa oportunidade. A primeira mulher a quebrar esse ranking no país foi a famosa, inspiradora e genial Chiquinha Gonzaga. Eu não me sinto nem 1% próximo dela em musicalidade, genialidade e criatividade. Ela regeu pela primeira vez no Teatro Imperial, em 1885, uma opereta em que ela mesmo fez a adaptação do texto inspirada em uma obra francesa. Quando foi entrevistada por jornalistas, eles ficaram completamente perdidos porque não existia o termo maestro no feminino. Eles ficaram sem saber se chamavam de maestra ou de maestrina. Então ela estreia o termo no feminino no Brasil e 134 anos depois o Espírito Santo ainda não produziu esse tipo de igualdade para as mulheres”, ressalta Alice Nascimento.

O elenco que vem se preparando desde março deste ano, conta com os solistas Alessandro Santana, Arifer Gomes, Patricia Ilus, Priscila Aquino e Carlos Kelert, além da participação da atriz Suely Bispo. A montagem também tem a participação de um coro jovem com mais 11 cantores.

Além das apresentações o projeto desenvolveu ações que buscam dar acesso ao público. No dia 23 de agosto será realizada uma apresentação gratuita e exclusiva para convidados e alunos de escolas públicas. Também serão realizados dois ensaios abertos gratuitos nos dias 20 e 22 de agosto, a partir das 18h30, no Palácio Sônia Cabral. Antes disso, no dia 15 de agosto, aconteceu uma roda de conversa sobre mulheres na arte. No início de agosto também foram realizadas ações de popularização da ópera em três shoppings da Grande Vitória.

“Todas essas ações visam aproximar o público da ópera. Nossa intenção é que as pessoas não tenham mais a impressão de que ópera é um produto apenas para um determinado público. A ópera é para todos. Queremos que cada vez mais pessoas tenham acesso ao projeto e a outras produções aqui do Espírito Santo”, ressalta a produtora Ludmila Porto.

O projeto foi contemplado no Edital de Produção de Ópera do Estado do Espírito Santo (Edital 025/2018), pela Secretaria Estadual de Cultura (SECULT). Os ingressos para duas apresentações nos dias 24 e 25 de agosto, já estão à venda e podem ser adquiridos na bilheteria do Palácio Sônia Cabral, em Vitória.

Sinopse

“A filha do regimento” de Gaetano Donizetti estreou na Ópera Cômica de Paris em 1840. É uma comédia dividida em dois atos que conta a história de Marie – uma criança rejeitada – que é criada pelos soldados do regimento francês, vivendo como vivandiere do exército. Ela ama o jovem fazendeiro Tonio, mas como só lhe é permitido casar-se com um soldado, ele se junta ao exército. Porém, tempos depois, sua tia, a Marquesa de Berkenfield, a encontra e a leva para casa para ter uma educação nobre, própria de uma dama da sociedade.

Mas será que uma soldado irá se adaptar aos padrões femininos exigidos para a época? Muito mais que ações e reviravoltas, a ópera é uma das poucas obras desse período que nos permite refletir sobre a construção dos papéis de gênero e o lugar da mulher na sociedade.

Serviço:

Dias: 24 e 25 de agosto

Horários: Sábado às 19h30 | Domingo às 18h

Local: Palácio Sônia Cabral (Praça João Clímaco, s/n – Centro, Vitória. Próximo ao Palácio Anchieta).

Ingressos: Inteira R$ 40,00 |Meia R$ 20,00

Classificação: 12 anos

Duração aproximada: 150 min.

A bilheteria funciona de terça-feira a sábado das 12h às 18h.