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Emoção, luxo e ousadia marcam segundo dia do Grupo Especial do Rio de Janeiro

Consagrada por suas críticas sociais e bom humor, a São Clemente foi a primeira a desfilar

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A São Clemente abriu os desfiles do segundo dia do Grupo Especial com irreverência e foi seguida por uma performance luxuosa da Vila Isabel e uma calorosa homenagem da Portela a Clara Nunes, depois União da Ilha, Mangueira, Mocidade e Paraíso do Tuiuti. Após a noite, de sábado (2), em que a chuva preocupou as escolas de samba do Rio de Janeiro, as agremiações do Grupo Especial que entraram no sambódromo na segunda-feira encontraram a pista seca e o tempo bem menos instável.

Consagrada por suas críticas sociais e bom humor, a São Clemente foi a primeira a desfilar ontem (4). A escola reviveu um samba de 1990 em que criticava os rumos do carnaval carioca, cheio de famosos, ingressos caros e efeitos especiais. “Virou Hollywood”, ironiza o samba, que criticava também a falta de espaço para o povo participar da festa.

A comissão de frente da São Clemente trouxe os cartolas do samba definindo o futuro do carnaval em uma virada de mesa, referência que já tinha aparecido no desfile da Grande Rio. As duas escolas lembraram a permanência da própria Grande Rio e da Império Serrano no Grupo Especial, depois de uma decisão em plenário da Liga Independente das Escolas de Samba ter suspendido os rebaixamentos do ano passado.

Ídolos Pop

Fantasiado de Michael Jackson e Madonna, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira apontava a invasão de ícones culturais norte-americanos no carnaval. No abre-alas, o destaque a Marylin Monroe reforçava essa crítica. Marylin apareceu de aplique loiro e sutiã de ícone – marcas da artista na vida real.

A escola ironizou também o luxo dos camarotes e a distribuição de credenciais para amigos de poderosos verem os desfiles, enquanto o povo fica de fora da Sapucaí. O segundo carro mostrou a programação dos camarotes, representando uma festa com DJ e música eletrônica em plena passarela do samba.

Discussões antigas do amantes de carnaval como os enredos e fantasias pagos, a influência da TV e o ego dos carnavalescos e estrelas também voltaram na reedição do enredo de 1990. Com a atualização do tema, as redes sociais entraram na lista, com a proliferação de “especialistas do samba” e intrigas espalhadas sobre as escolas.

Investimentos

A escola defendeu ainda o investimento em cultura, criticando os cortes de verbas que as escolas de samba sofreram nos últimos anos. A São Clemente terminou o desfile em clima de nostalgia, lembrando antigos carnavais. O carnavalesco Jorge Silveira disse que o desfile cheio de críticas e irreverência foi um reencontro da escola com sua essência. Segundo ele, é necessário cuidar para, como diz o enredo, o samba não sambar.

“Muita coisa que ameaçava a gente naquela época continua ameaçando. A coisa só se potencializou. Mas o que mais fere o sambista é deixar o povo fora da jogada. O carnaval é do povo e ele é o protagonista”.

Vila Isabel

A Vila Isabel subiu a serra e homenageou Petrópolis no carnaval deste ano. O enredo promoveu o encontro da cidade imperial com a comunidade do Morro dos Macacos e teve seu desfile iniciado por uma visita ao Museu Imperial, principal ponto turístico da cidade serrana.

O palácio foi retratado pela comissão de frente, em que estátuas se moviam e convidavam o público a entrar. No abre-alas, três luxuosos carros acoplados representavam cavalos puxando a carruagem e a coroa real, seguidas por alas que retratavam a corte e os anjos a acompanhar São Pedro de Alcântara, antigo padroeiro do Brasil Imperial.

Da opulência da coroa, o desfile seguiu para a beleza natural da serra que já pertenceu aos índios. O desfile passa ainda pela chegada dos imigrantes europeus e árabes à região, à ferrovia e à presença da cidade nos primeiros passos brasileiros no cinema.

Tempo

A Vila Isabel correu contra o tempo, mas não conseguiu encerrar o desfile no limite de 75 minutos, o que pode render penalidade na pontuação. Apesar do contratempo, o carnavalesco Edson Pereira considerou o desfile um sucesso. “Até se [o atraso] comprometeu, nossa satisfação foi ter feito um carnaval de qualidade e mostrar para a comunidade que a gente está vivo.”

No último setor, o desfile lembrou o papel da Princesa Isabel na assinatura da Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil. A escola falou da luta por justiça e contra a desigualdade racial, e a família da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), assassinada em março de 2018, desfilou no último carro.

A irmã, o pai e a filha da vereadora levavam uma faixa escrito “Marielle Presente”, e a irmã Anielle se emocionou ao comentar o desfile em um carro que representou uma das bandeiras que Marielle defendia. “Estar aqui com o povo negro foi muito forte. Ela [Marielle] era isso. Era carnaval. Não tem jeito de não ficar com um nó na garganta.”

Portela

O terceiro desfile da noite foi da Portela, escola tradicional de Madureira que decidiu homenagear uma de suas grandes estrelas, a cantora Clara Nunes. Em vez de contar a biografia da cantora, a Portela escolheu explorar sua brasilidade e falou de sua formação religiosa, da infância no interior e do encontro de Clara com o subúrbio do Rio de Janeiro, onde conheceu a Portela.

A comissão de Frente, coreografada por Carlinhos de Jesus, trouxe as Guerreiras de Iansã. O coreógrafo comemorou que tudo saiu como planejado. “A ideia era homenagear a mulher brasileira por meio da figura da Clara Nunes, que foi uma das pioneiras a bater no peito e assumir uma série de posicionamentos. E isso foi muito importante, porque a Clara tem essa voz.”

O desfile teve outros elementos de religiões de matriz africana, ao mesmo tempo em que carros sobre a fé católica trouxeram igrejas barrocas e a imagem de Nossa Senhora Aparecida. No abre-alas, a icônica águia da Portela veio neste ano com asas reluzentes, voando sobre outras aves da fauna brasileira.

O desfile também falou da criatividade do povo brasileiro e contou, em um abre-alas, a história de um comerciante de Madureira que mandou decorar um coreto do bairro como se fosse a Torre Eiffel. A pintora Tarsila do Amaral testemunhou a cena e a eternizou no quadro Carnaval em Madureira, considerada uma importante obra do modernismo brasileiro.

Para o presidente do Conselho Deliberativo da escola, Fábio Pavão, a Portela foi iluminada por sua estrela. “A Clara Nunes iluminou a escola, iluminou seus componentes e todos passaram com muita garra. Agora é esperar o resultado”, disse. Segundo ele, problemas como a dificuldade de tirar o abre alas da dispersão não afetaram o desfile. “A gente foi no braço. A Portela é isso”.

Confira os melhores momentos:

Mocidade Independente de Padre Miguel

A Mocidade Independente de Padre Miguel encerrou o desfile das escolas especiais do Rio narrando a relação do homem com o tempo, as agruras e alegrias que a passagem das horas proporciona. Com o enredo ‘Eu sou o tempo, tempo é vida’, o carnavalesco Alexandre Louzada colocou na Marquês de Sapucaí toda sorte de metáforas relativas ao tema.

Estação Primeira de Mangueira

Entre os nove quesitos que decidem a disputa entre as escolas de samba do Rio não está a emoção. Se estivesse, a Estação Primeira de Mangueira já poderia se considerar campeã de 2019. Sexta escola a se apresentar na segunda noite de desfiles, já ao amanhecer desta terça-feira, 5, a verde e rosa se equiparou a outras em fantasias e alegorias, mas arrebatou a plateia com uma comovente homenagem à vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada em março de 2018 no centro do Rio. A parlamentar era citada nominalmente no samba, o mais cantado deste carnaval.

Paraíso do Tuiuti

A Paraíso do Tuiuti foi a quinta a desfilar na segunda noite de exibições no sambódromo do Rio, já na madrugada desta terça-feira, 5. Escola de pouca tradição na elite do carnaval carioca, a agremiação vive uma alternância de resultados: em 2017, o carro abre-alas se desgovernou quando entrava na pista do sambódromo e prensou contra as grades pessoas que estavam nas laterais.

União da Ilha

E “Padim Ciço” sobrevoou a Marquês de Sapucaí sobre um drone, para abençoar a passagem da Ilha do Governador na avenida, O padroeiro nordestino voador foi o ponto alto do desfile da escola de samba, o quarto deste domingo, 4, de encerramento de disputa entre as agremiações do grupo especial.

Portela

A Portela foi a terceira agremiação a se apresentar no sambódromo do Rio de Janeiro na segunda noite de exibições das escolas de samba do Rio, já na madrugada desta terça-feira, 5. A escola emocionou o sambódromo ao homenagear a cantora portelense Clara Nunes (1942-1983), um ícone da escola de Madureira (bairro da zona norte do Rio). Sob o comando da experiente carnavalesca Rosa Magalhães, a escola apresentou fantasias e alegorias luxuosas e bem acabadas. O único senão à exibição foi ter corrido um pouco, no final.

Unidos de Vila Isabel

A Unidos de Vila Isabel, azul e branca do bairro de Noel, trouxe a família real e a cidade serrana de Petrópolis (RJ) à Marquês de Sapucaí. Com o enredo “Em nome do pai, do filho e dos santos – a Vila canta a cidade de Pedro” e assinatura do carnavalesco Edson Pereira, a escola narrou os tempos áureos do município fluminense, morada de verão de Dom Pedro II e descendentes, entre eles a Princesa Isabel .

São Clemente

Conhecida pelos enredos bem-humorados, desta vez a escola de Botafogo (zona sul) repetiu uma crítica que já havia apresentado em 1990 e que ficou ainda mais atual. O enredo “E o Samba Sambou” mostrou como a profissionalização do desfile impôs mudanças às escolas e o carnaval passou a ser regido pelo poder financeiro. O tema foi bem explorado, com fantasias e alegorias compreensíveis, mas a escola sofre exatamente com a falta de dinheiro. Sem luxo e bastante simplória, e ainda afetada por uma certa correria, a escola certamente não retorna no Desfile das Campeãs, que vai reunir no próximo sábado (9) as seis escolas mais bem colocadas.

Com informações do Estadão Conteúdo e da Agência Brasil