No mundo de hoje, o tempo se tornou uma moeda valiosa. Diz se não nos impressionamos com quem consegue fazer mais coisas em menos tempo? Seja mais coisas num dia, num mês ou numa vida. Nessa busca constante de metas e metas, conhecemos várias técnicas que nos garantem o dobro da conquista na metade do tempo. E os livros, claro, não estão de fora desse novo padrão.
O sonho de proporcionar leituras rápidas que gerou o processo de leitura dinâmica. A técnica se tornou popular com o escritor britânico Tony Buzan (o fundador do conceito de mapas mentais). Quando jovem, Buzan não se conformava com seu ritmo lento de sua leitura e pensou na possibilidade de ler mais rápido a partir da anatomia dos olhos e da maneira como o cérebro processa informações.
Foi assim que o escritor conseguiu ler mais de 2 mil livros ao longo da vida. Ok, mas até que ponto a leitura dinâmica funciona? E mais: ela é realmente necessária? Bem, pra começar, podemos dividir os leitores em três tipos, de acordo com a quantidade de palavras lidas por minuto (ppm):
Leitor comum: lê entre 70 a 150 palavras ppm;
Leitor médio: lê entre 150 a 300 ppm;
Leitor dinâmico: lê acima de 600 ppm.
Quando a gente vê a diferença de 150 para 600 ppm, logo pensa: a leitura dinâmica é um presente dos céus para nós, reles mortais, certo? Tem até quem diz ler impressionantes 18 mil palavras por minuto. Porém, vamos entender como a leitura funciona antes de chegarmos às conclusões:
Como funciona a leitura?
O que neurocientistas e mais um monte de pesquisadores concluíram é que a leitura é um processo que envolve várias etapas e o olho é só a porta de entrada para o que acontece de verdade na sua cabeça.
Primeiro, ocorre a fixação: você vê a palavra ou a frase e o cérebro leva cerca de 0,25 segundo para fixar esse trecho. Depois, você move o olho para a próxima palavra ou frase, o que leva mais ou menos 0,1 segundo.
Aí o seu cérebro repete esse processo uma ou duas vezes (esse é o processo da subvocalização. Sabe quando temos a sensação de que o que estamos lendo está sendo dito na nossa cabeça? É isso) e faz uma pausa para compreender o que acabou de ler, o que dura de 0,3 a 0,5 segundo. E pronto, é assim que conseguimos ler de até 400 ppm.
E como é na leitura dinâmica?
Os leitores dinâmicos geralmente diminuem o tempo de fixação, ou seja, o tempo olhando para as palavras, cortando a subvocalização. Várias técnicas prometem atribuir essa habilidade dos deuses aos leitores. As mais comuns são:
Skimming: esse método de leitura dinâmica que é até difícil traduzir para o português significa passar o olho pelas frases procurando palavras-chave para a compreensão do texto. Tem gente que pratica isso sem nem perceber e vários conteúdos como sites e jornais até fazem a diagramação do conteúdo nesse formato justamente para facilitar que o leitor encontre as palavras mais importantes do texto.
Meta Guiding: essa com certeza está entre as mais populares. Quem nunca usou o dedo ou uma caneta para guiar os olhos na leitura? Pois bem, isso é o meta guiding. Assim, evitamos distrações, ótimas para atrasar a leitura (ou qualquer outro objetivo na vida, né?).
Apresentação Visual Serial Rápida (AVSR): técnica de leitura dinâmica para o ambiente digital. Os aplicativos deixam algumas palavras piscando na tela para o leitor se concentrar em uma de cada vez. Depois, com a prática, dá para aumentar a velocidade entre elas e aí você vira o papa-léguas da leitura.
Mas e aí: vale a pena fazer leitura dinâmica?
A vantagem de ler mais livros é ler mais livros, o sonho de muitos leitores. Mas o problema é que o tempo encurtado nesse processo acaba afetando, segundo alguns pesquisadores, a etapa que torna a leitura, leitura: a compreensão.
Ainda que possamos “controlar” a parte dos olhos, o que cabe ao cérebro é outra história. É como se quiséssemos enfiar 500 palavras num funil onde só passam 150 por vez, ou seja, vai entupir o fluxo da compreensão, diz Keith Rayner, pesquisador da Universidade da Califórnia, nos EUA.
Essa sobrecarga também é sentida na área cerebral chamada de memória de trabalho, ou memória de curto prazo. Quando as palavras chegam numa velocidade maior do que podemos processar, não conseguimos lembrar com clareza do que acabamos de ler. E aí, lemos, lemos, lemos e, no fim… o que eu acabei de ler mesmo?
Os próprios campeonatos de leitura dinâmica reconhecem que a compreensão não é 100%. Uma das competidoras no Campeonato Mundial de Leitura Dinâmica, Anne Jones, foi premiada por ler 4,7 mil palavras por minuto com 67% de compreensão. Tem curso de leitura dinâmica reconhecido internacionalmente que promete ensinar aos alunos 550 a 600 palavras por minuto com 70% de compreensão. (Imagina a frustração do autor ao saber que a pessoa levou uma hora para ler o que ele levou 4 anos para escrever? E para só entender 60% do que foi escrito?)
Para concluir essa (loooonga, mas necessária) discussão sobre leitura dinâmica, o mais importante é estabelecer bem as metas: quantidade de livros ou qualidade na leitura? Se você quer aumentar a quantidade de livros lidos, há cursos com técnicas que com certeza irão auxiliá-lo neste caminho. Minhas considerações, porém, são se, realmente, ler mais livros significa compreender e absorver mais livros. Na minha humilde opinião, a leitura só vale a pena se for algo prazeroso. A partir do momento que se torna uma obrigação e uma meta, é melhor repensar esse hábito.