Artigo de Luciana Garbin, editora-executiva no Estadão, professora na FAAP e mãe de gêmeos.
Se você é pai ou mãe de adolescente, talvez ainda não saiba o que significa dix, mas muito provavelmente seu filho ou sua filha sabe. E, mais do que isso, pode estar usando o dix pra fins que provavelmente não vão te agradar.
Dix – ou dixx – é o nome dado a perfis privados do Instagram, criados geralmente como uma conta secundária onde se postam conteúdos destinados apenas a alguns seguidores escolhidos a dedo. E, como se pode imaginar, bem longe de olhares de parentes ou conhecidos mais críticos.
A regra no final é a seguinte: postar no Instagram oficial fotos e vídeos mais comportados e despejar no dix imagens mais bizarras, registros de bebedeiras nas baladas, uso de cigarros eletrônicos, remédios controlados, nudes, zoeiras com amigos, desabafos. Resumindo, conteúdos que em geral deixam a maioria dos pais de cabelo em pé.
Basta uma conversa com alguém da geração Z para constatar que os perfis – ou contas – dix já rolam no mundo adolescente ao menos desde 2016. Surgiram ainda antes de o Instagram criar a função Mellhores Amigos para restringir o envio de stories, ganhou glamour ao serem usados por celebridades para escapar de fãs e se alastrou entre anônimos.
Ativos apenas no modo privado, eles podem manter o nome original do usuário original seguido por um _dix ou .dix, mas na maioria dos casos têm nomes que dificultam a identificação do autor, como apelidos, por exemplo, e uma quantidade de x que vai de um a mais de dez. Experimente por exemplo digitar dixxxxxx na busca do Instagram e você encontrará um punhado de perfis.
Mas se eles são algo a que os jovens já se dedicam há quase uma década, por que falar disso agora?
Primeiro porque boa parte dos pais ainda nem faz ideia de que eles existem, mesmo com o tema tendo ganhado destaque nos últimos tempos, em meio às discussões sobre restrição de redes sociais para adolescentes. Depois de uma avalanche de notícias negativas sobre o impacto de Instagram e companhia para menores de idade, países passaram a tentar limitar seu acesso. Em novembro, por exemplo, a Austrália proibiu redes sociais para quem ainda não tem 16 anos e criou multa de mais de US$ 30 milhões para plataformas que não tomarem medidas efetivas para impedir seu uso por adolescentes.
Segundo porque, ao não saberem que os perfis dix existem, os pais também estão distantes dos riscos que eles representam para seus filhos e para si próprios. Como os usuários desses perfis conseguem selecionar seus seguidores e limitar quem vê suas publicações, eles têm a falsa ilusão de que têm uma “conta secreta” e despejam lá um monte de conteúdos muitas vezes sem filtro nenhum. Mas na internet qualquer sensação de segurança geralmente é falsa.
Os posts podem estar imunes a olhares do pai, da mãe, do professor, do chefe, mas podem facilmente vazar e acabar nas mãos de pessoas erradas. De terceiros ou até dos próprios seguidores. E não é difícil tirarem uma foto ou fazerem a captura de tela de um conteúdo postado e espalharem nas redes.
Pesquisas mostram, por exemplo, que o chamado sexting – compartilhamento de imagens íntimas na internet – tem no Instagram uma de suas plataformas mais utilizadas e é prática cada vez mais comum. Nudes ou fotos de lingerie podem bem rápido ir parar nas mãos de criminosos. Assim como informações sobre a rotina familiar – locais de estudo ou viagem podem revelar detalhes que comprometem a segurança do usuário e seus parentes. Isso sem contar outros problemas relacionados a redes sociais, como o stalking, a prática de perseguir alguém de forma sistemática.
Por fim, alguns tipos de conteúdo podem afetar até judicialmente os mesmos pais de jovens que ignoram o dix. Se o conteúdo postado pelo filho configurar um crime, não será novidade a Justiça identificar o abandono digital e responsabilizar os responsáveis pelo mal causado. E aí será preciso conter não só os eventuais danos psicológicos sofridos pelo filho como os problemas jurídicos impostos contra a família, a quem cabe o dever de guiar os menores também no universo digital.
Por isso, o dix requer cautela. Assim como é preciso atenção ao que seu filho ou sua filha anda espalhando pelo mundo online. Conversar, lembrar dos riscos e alertar para eventuais problemas que às vezes eles nem imaginam que possam surgir é um caminho. Assim como ficar de olho nessas novidades que surgem a cada dia nas plataformas e vendem a ilusão de oferecer total privacidade. Uma privacidade que elas certamente não conseguirão entregar.