Economia

Cidadania corporativa como agente de mudança e de geração de valor

Organizações devem ser orientadas para assumirem suas responsabilidades relacionadas com o impacto social, ambiental e econômico que têm sobre a sociedade

Foto: Freepik

*Artigo escrito por Guilherme Machado, pós Graduado em Contabilidade pela FGV e MBA em Gestão de Riscos e Compliance pela Fecap. Auditor, responsável pela área de GRC do escritório da Baker Tilly em Vitória e Membro do Comitê Qualificado de Conteúdo de GRC do IBEF-ES.

O ano é 2023; ainda não chegamos à metade da terceira década do século XXI, mas parece que já se passaram mais de 100 anos desde a virada do milênio. 

É inegável que o avanço frenético das novas tecnologias e formas de comunicação e interação contribuem enormemente para esta sensação.

Porém, a evolução segue no mesmo ritmo no campo do comportamento e das relações humanas e das relações dos humanos com o meio ambiente. 

A virada do século foi marcada pelo Pacto Global da ONU, uma iniciativa do então secretário-geral Kofi Annan, quando foram estabelecidos dez princípios relacionados com direitos humanos, trabalho, meio ambiente e combate à corrupção.

Atualmente há cerca de 22 mil de empresas signatárias do Pacto que defendem os dez princípios, assumindo o compromisso de apoiar e respeitar a proteção dos direitos humanos e se assegurar de não participar de violações. 

Isso inclui apoiar a livre associação e o direito à negociação coletiva, eliminando todas as formas de trabalho forçado ou compulsório e a discriminação na empresa, além de abolir o trabalho infantil, tratando o tema do meio ambiente de forma preventiva, com o desenvolvimento de iniciativas de responsabilidade social. 

Além disso, as empresas devem se engajar no combate à corrupção em todas as suas formas.

Em 2015 a ONU lançou os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS), que são uma série de metas estabelecidas pelas Nações Unidas para enfrentar os desafios globais e promover um futuro sustentável para todos. 

Os objetivos, que compõem a agenda 2030, incluem a erradicação da pobreza em todas as suas formas, acabar com a fome, buscar a segurança alimentar e melhorar a nutrição, assegurar vida saudável e bem-estar em todas as idades, com melhoria de acesso ao sistema de saúde, educação de qualidade, promover igualdade de gênero e garantir o acesso a água limpa e saneamento.

Também incluem fomentar o uso de energias renováveis e acessíveis, estimular o desenvolvimento econômico sustentado e inclusivo, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação para impulsionar o desenvolvimento econômico, redução das desigualdades dentro e entre os países, tornar as cidades mais seguras, resilientes e confortáveis, promover o consumo e a produção responsáveis, tomar medidas urgentes para combater as mudanças climáticas e seus impactos, conservar e utilizar de forma sustentável os oceanos e os ecossistemas terrestres, promover sociedades pacíficas e inclusivas e facilitar o acesso à justiça, e, por fim, fortalecer parcerias globais para o desenvolvimento sustentável.

Os compromissos assumidos voluntariamente através do pacto global ou aqueles estimulados pelos ODS serão cobrados – em maior ou menor medida – das organizações, que devem reconhecer (se ainda não fizeram) que não operam no vácuo e se identificarem como parte integrante da sociedade e, portanto, com responsabilidades atuais e futuras sobre as partes interessadas. 

É inegável que, em maior ou menor proporção, todas as cadeias produtivas serão afetadas e as partes envolvidas estimuladas na observância e cumprimento dos compromissos sociais e ambientais.

As respostas a compromissos tão desafiadores devem ser proporcionais à capacidade das organizações, sendo que as maiores devem responder mais rápido, uma vez que cada vez mais se consolida uma consciência coletiva de consumir de empresas socialmente engajadas e responsáveis com o meio ambiente. 

Isso acaba por ter um efeito cascata em que as organizações de maior porte (que são cobradas primeiro!) passam a exigir comportamento semelhante de sua cadeia de fornecedores e assim por diante.

As organizações, portanto, devem ser lideradas e orientadas para assumirem as suas responsabilidades relacionadas com o impacto social, ambiental e econômico que suas atividades têm sobre a sociedade. É o que chamamos de cidadania corporativa.

A busca pela cidadania corporativa deve fazer parte da estratégia das organizações que devem ser lideradas e orientadas com os princípios lhe conduzam nesta direção. A liderança é aspecto fundamental neste processo!

Na visão do King Code of Corporate Governance (2002), governança corporativa é essencialmente “liderança na busca de eficiência para competir de forma eficiente numa economia global, atuando de forma transparente, responsável, honesta e íntegra, atenta às preocupações sociais vinculadas às suas atividades”. 

A criação de valor, portanto, virá também a partir de uma atuação responsável e atenta às necessidades das partes interessadas, com a manutenção de um ambiente de negócios saudável, com respeito às pessoas e ao meio ambiente.

A liderança deve demonstrar compromisso pessoal com a cidadania corporativa, sendo um exemplo para toda a organização. 

Uma liderança engajada e responsável inspira os demais membros da equipe a se envolverem ativamente na busca do status de cidadania corporativa. 

O compromisso pessoal dos líderes também demonstra a importância atribuída a esses aspectos e reforça a cultura da responsabilidade social e ambiental.

As estratégias da organização direcionadas para a responsabilidade social e ambiental devem ser claras e comunicadas de forma transparente para todas as partes interessadas, estimulando o engajamento destas, para criação de um ambiente virtuoso e de promoção constante da cidadania corporativa. 

A liderança deve promover o estímulo para uma atuação cidadã das pessoas que fazem a organização, pois do comportamento delas é que aparecem os resultados das estratégias.

Não se pode perder de vista, porém, que um modelo de governança corporativa não pode deixar de estar orientado para a geração de valor para os investidores, que esperam o retorno de sua aplicação de capital, o que garantirá a continuidade e perpetuidade do negócio, a manutenção de empregos, o recolhimento de tributos e todos os reflexos positivos do ponto de vista social e ambiental que uma empresa socialmente responsável puder promover.

Neste sentido, é inegável que a adoção de estratégias voltadas ao cumprimento de compromissos sociais e ambientais pela organização envolvem o incremento de custos que, talvez, não estivessem previstos no curso normal de suas operações. 

Entretanto, o retorno e, consequentemente, a geração de valor, poderão ser percebidos no fortalecimento da reputação da organização e na consolidação de sua marca de empresa cidadã, que pode lhe conferir vantagem competitiva perante seus concorrente. 

Além disso, há o favorecimento à atração e retenção de talentos, que podem fomentar o aspecto da inovação na organização, com reflexos na eficiência operacional e, portanto, nos resultados.

Estes aspectos devem ser tangíveis e mensuráveis, com o estabelecimento de metas e indicadores de desempenho que orientem a organização na busca contínua pela melhoria de seus processos e permitam a apuração e o monitoramento dos resultados das ações e seus reflexos no desempenho corporativo e, por conseguinte, na geração de valor para os investidores.

Para promover a comunicação adequada, completa e consistente, o Global Report Initiative (GRI) estabeleceu um conjunto de diretrizes e padrões que fornecem orientações sobre como as empresas podem relatar seus impactos ambientais, sociais e econômicos de maneira transparente e abrangente, envolvendo: 

(i) a transparência e a prestação de contas em relação às suas práticas e desempenho sobre questões sociais, ambientais e econômicas; 

(ii) identificação dos temas e preocupações mais relevantes para suas operações e partes interessadas; 

(iii) gerenciamento dos seus impactos sociais, ambientais e econômicos de maneira responsável, envolvendo ações para redução das emissões de carbono, programas de inclusão social, diversidade e igualdade de gênero, iniciativas de engajamento comunitário, entre outros; e 

(iv) o estabelecimento de metas específicas e mensuráveis de redução de impacto ambiental, metas de inclusão e diversidade, metas de responsabilidade social.

As diretrizes do GRI estão cada vez sendo incorporadas e exigidas das organizações, seja pelo meio da regulação dos órgãos governamentais, pelo mercado de capitais ou mesmo na relação entre financiadores e tomadores de capital. 

Assim é possível conhecer iniciativas voltadas à cidadania corporativa das grandes corporações, como os programas para contratação de pessoas no espectro do autismo. 

A SAP foi a pioneira em programas neste sentido, com a criação do programa “Autism at Work em 2013. Essa iniciativa foi seguida por outras empresas como Microsoft, JP Mogan Chase e Hewlett Packard. 

Há exemplos interessantes nas empresas nacionais voltados à promoção cultural e ações de inclusão social, além de melhoria nas condições de vida das comunidades abrangidas, como o “Natura Musical”, o “Bradesco Educação” ou o programa “Petrobras Socio Ambiental”, para investimento em projetos socioambientais em áreas como conservação da biodiversidade, educação ambiental e desenvolvimento comunitário.

As empresas capixabas também têm executado ações de sucesso e com impacto social significativo, como os programas “Educação que Faz a Diferença”, do Grupo Águia Branca, que oferece apoio escolar para crianças e jovens em vulnerabilidade social ou o “Sicoob Educação”, que oferece orientação financeira para a comunidade em geral. 

O Grupo Imetame também apresenta iniciativas criativas e que fazem toda a diferença na vida das comunidades, como os programas em que o custo com os tradicionais brindes de final de ano que seriam enviados aos clientes são destinados para a aquisição de móveis, eletrodomésticos, material de construção para as famílias especiais das comunidades circunvizinhas.   

Como resultado destas iniciativas, as organizações são inseridas no cotidiano e na realidade situacional de suas partes interessadas, possibilitando-as se tornarem agentes de mudança positiva. 

A cidadania corporativa não é apenas uma prática isolada, mas uma abordagem estratégica que busca integrar considerações sociais e ambientais em todas as áreas de atuação de uma organização, que passam a reconhecer o seu papel importante na construção de uma sociedade mais justa, equitativa e sustentável, e que o sucesso a longo prazo de uma organização está ligado ao bem-estar da sociedade como um todo.

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Instituto Brasileiro de executivos de finanças - Espírito Santo

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