Cena da série Adolescência
Cena da série Adolescência. Foto: Imagem/Netflix

“Você assistiu Adolescência? O que achou da série?” Nas últimas semanas, a produção recém-lançada tem dominado as redes sociais e as rodas de conversa de pais, educadores e amigos, especialmente aqueles com filhos adolescentes ou próximos dessa faixa etária.

Um menino de 13 anos mata uma colega de escola. Para quem ainda não assistiu, o spoiler em nada interfere no que nos prende do início ao fim da história.

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Assim como em Romeu e Julieta, clássico de Shakespeare cujo final todos conhecem, o que confere qualidade ao enredo é a excelência na construção e no desenrolar dos dramas humanos escancarados na trama.

Vamos explorar esses dramas – a adolescência, o mundo das redes sociais e os adultos – em três atos.

ATO I – A Adolescência

Quem é pai, mãe ou professor de adolescente sabe dos desafios dessa fase. Não por acaso, os jovens são frequentemente chamados de “aborrecentes”, termo que em nada me agrada, pois reduz essa etapa a um clichê e isenta os adultos de sua responsabilidade como educadores.

A adolescência é, sim, um período desafiador, assim como a primeira infância. Mas, diferentemente de um bebê, um adolescente é naturalmente um transgressor.

Ele não encontra conforto imediato como uma chupeta oferece a um bebê. Essa característica se deve a mudanças hormonais e ao desenvolvimento cerebral intenso nessa fase da vida.

Nosso córtex pré-frontal, área do cérebro responsável pela tomada de decisão, autocontrole, regulação emocional e resolução de problemas, é uma das últimas a se desenvolver completamente, o que normalmente ocorre até os 25 anos.

Por isso, um adolescente é naturalmente mais propenso à tomada de riscos, à exploração de contextos novos, ao engajamento social intenso e à criatividade exacerbada.

Assim, a aparente independência que ele começa a adquirir requer um acompanhamento atento e cuidadoso (sem sufocar) dos adultos que o cercam.

Esse acompanhamento se dá pelo fortalecimento de vínculos, pelo tempo de qualidade vivido com os adultos e pela consolidação dos valores que queremos que permaneçam por toda a vida. Um adolescente sem referência adulta é um barco à deriva no oceano da própria existência.

Ato II – O mundo das redes sociais

Estamos vivendo uma nova era. A humanidade sempre atravessou transformações, mas desta vez há algo diferente: estamos imersos em múltiplos universos que atravessam nossa vida física.

Esses universos são regidos por valores que nós, adultos, desconhecemos, e possuem uma capilaridade e uma velocidade que nosso corpo de carbono não consegue acompanhar nem controlar. Do que estou falando, em termos práticos?

Quando adultos que, assim como eu, já passaram dos 50 anos, queriam falar com amigos ou “paqueras” (será que essa palavra ainda é usada?), iam à casa dessas pessoas ou telefonavam para elas.

Lembro do frio na barriga ao ligar para minha namorada (hoje minha esposa). Quem atenderia? O pai? A mãe? O irmão? Havia ali a oportunidade de nos “lermos”: é gente boa? Educado? Seco? Esse processo valia para ambos os lados. A aldeia se conhecia mais.

Hoje, o celular nem toca. A mensagem chega em silêncio, à mesa do jantar ou no quarto escuro. Quem está no quarto com minha filha? Aparentemente, ela está sozinha. Mas será mesmo? Quais são os valores que estão sendo compartilhados com ela, que ainda tem o cérebro em formação?

Em sua obra Nexus, o historiador Yuval Harari analisa a história das redes de informação, da Idade da Pedra à inteligência artificial. Ele revela como as redes sociais são programadas para gerar engajamento, explorando a dor e a vulnerabilidade dos usuários.

A inteligência artificial presente nessas plataformas aprendeu, por exemplo, que “é mais provável os seres humanos se engajarem com uma teoria da conspiração cheia de ódio do que com um sermão sobre a compaixão”.

Essas plataformas, conforme documentos internos que foram tornados públicos em 2019, têm total conhecimento disso.

As redes sociais capturaram o adolescente Jamie Miller quando descobriram sua dor e o conectaram com mensagem e grupos de outros jovens que compartilhavam dessa mesma dor. Dor + ódio = engajamento. Bingo!

Pais: tragam os filhos de volta para a sala de jantar. Sem celulares. Levem e busquem seus filhos nas festas. Deem carona para os amigos. Conversar ou somente ouvi-los conversando no carro é um presente para a conexão e (re)direcionamento. O silêncio atual está ensurdecedor e altamente perigoso.

Ainda em Nexus, Harari afirma que “para manipular os humanos, não é preciso conectar fisicamente cérebros a computadores. Há milhares de anos, profetas, poetas e políticos usam a linguagem para manipular e remodelar a sociedade. Agora os computadores estão aprendendo a fazer isso. E não precisam de robôs assassinos para atirar em nós. Podem manipular seres humanos para que apertem o gatilho.”

Ato III – Os adultos

Senti profundamente a dor dos pais ao assistir à série. Muito me impactou quando, no último episódio, Eddie Miller, pai de Jamie, relembra que apanhava de seu próprio pai e diz que não queria infligir essa dor ao filho. Imagino sua pergunta silenciosa e dilacerante: “O que fiz de errado?”.

A esmagadora maioria dos pais de hoje e de ontem quer o melhor para os filhos e age com os recursos que considera mais adequados. No entanto, cabe a nós, adultos, assumirmos nosso papel de educadores.

Se no passado nossos pais não tinham acesso às informações e estudos de hoje, essa não é mais a nossa realidade. Portanto, presença e conhecimento sobre o desenvolvimento infantil e adolescente são ferramentas essenciais para a formação de adultos saudáveis.

A escola de Jamie também me chamou a atenção. Um ambiente frio, autoritário, que mais lembra uma prisão. Infelizmente, ainda vemos muitas escolas assim. Alunos permanentemente enfileirados, professores autoritários sem autoridade que gritam com os alunos e alunos que reagem com sarcasmo e deboche.

Questões socioemocionais não reconhecidas ou minimizadas em prol do cumprimento do que está planejado.

Sinais. Sinais de escola sempre me assustaram. Não sei porque ainda existem. Sinais tocam em cadeias ou para alertar sobre incêndio. Nada tem a ver com educação. Um modelo de educação alicerçado em comando e controle, permeado por coerção, só aprisiona e fragiliza.

Na falta de conexão com os educadores da escola, o jovem está pronto para ser fisgado pelo sedutor poder das redes programadas para espalhar ódio. 

Epílogo

O desfecho dessa história chamada adolescência, a real, sem aspas ou letra maiúscula, pode ser belo. Essa fase da vida tem uma beleza singular. As descobertas, os insights, as transformações são tão relevantes que, quando falamos da música de nosso tempo, estamos frequentemente nos referindo ao que ouvíamos até os 20 e poucos anos.

O senso de humor e as transgressões dos adolescentes são importantes lembretes para nós, adultos, que somos fonte de vida que pulsa e quer ir além. Nós precisamos deles e eles precisam de nós. Sem culpa e com muita conexão.

Conecte-se com o adolescente que existe em você e abrace os adolescentes ao seu redor. Não há IA que seja mais poderosa do que essa conexão.  

Cristiano Carvalho

Colunista

CEO da Escola Americana de Vitória. Educador há mais de 30 anos, professor de Inglês com especialização em linguística aplicada. Coordenou projetos bilíngues e de educação internacional em escolas de educação básica, construindo e gerindo currículos e equipes docentes.

CEO da Escola Americana de Vitória. Educador há mais de 30 anos, professor de Inglês com especialização em linguística aplicada. Coordenou projetos bilíngues e de educação internacional em escolas de educação básica, construindo e gerindo currículos e equipes docentes.