Espaço Educação

Nem todo mundo pode ser juiz – e aqui está o porquê

O cargo de juiz exige uma grande responsabilidade, com alta carga de trabalho e, muitas vezes, exposição a riscos

martelo de juiz
Foto: Canva

Recentemente, assisti a um vídeo em que uma juíza foi abordada por um influenciador em uma dessas entrevistas de rua, em que as pessoas são pegas de surpresa e questionadas sobre sua profissão.

Em determinado momento, ele perguntou sobre o salário da magistratura, e ela respondeu abertamente, mencionando os valores e os benefícios que recebe.

Leia também: Como a educação em tecnologia ajuda a evitar golpes digitais

Diante das inúmeras críticas ao vídeo nos comentários da rede social, ela decidiu se manifestar e escreveu um pequeno texto em defesa de sua posição. Transcrevo aqui um trecho de sua postagem, ipsis litteris:

“E para aqueles que criticam, só posso dizer que qualquer um pode ser juiz. O concurso é aberto a todos. Basta fazer o curso de Direito e estudar com afinco e dedicação”.

Não é qualquer um que pode ser juiz

Em seguida, discorreu sobre a importância da honestidade e da fé em Deus. Segundo suas declarações, sua remuneração líquida gira em torno de R$ 45 mil, tudo dentro da legalidade.

Não vou nem entrar na questão de que nem todas as leis são, necessariamente, éticas ou justas.

O ponto central aqui é outro: NÃO, não é qualquer um que pode ser juiz. E ela, mais do que ninguém, deveria saber disso.

Como magistrada, deveria compreender melhor o conceito de equidade. As oportunidades não são iguais para todos.

Não conheço a trajetória pessoal dessa juíza. Talvez tenha enfrentado dificuldades ao longo da vida.

Mas minha análise não é sobre ela, e sim sobre o discurso que perpetua a ideia de que qualquer pessoa pode alcançar qualquer coisa, desde que se esforce o suficiente.

Essa narrativa é, no mínimo, uma grande falácia, pois desconsidera toda a complexidade da realidade social.

Não sou contrária a um juiz receber um excelente salário. Esse profissional precisa de um rendimento digno para exercer suas funções com independência, sem pressões externas que possam comprometer sua imparcialidade. 

Trata-se de uma posição de poder que exige grande responsabilidade, com alta carga de trabalho e, muitas vezes, exposição a riscos.

Cresci em meio a profissionais do Direito — meu avô foi juiz, meu tio também — e convivi de perto com essas discussões.

Não há problema em ser juiz. Não há problema em ocupar uma posição de poder. Na verdade, é essencial que tenhamos juízes comprometidos com a justiça para que a democracia se consolide.

O problema está em um discurso que ignora as desigualdades, que desconsidera as diferenças e que sugere que todos largam do mesmo ponto de partida.

A verdade é que essa posição é privilegiada. Assim como a minha, por exemplo: sou uma pessoa branca e reconheço os privilégios que essa condição me confere. 

Reconhecer privilégios não é um ataque pessoal a quem os tem, mas um passo essencial para a construção de uma sociedade mais justa.

Agora, faço um paralelo.

A corrida da vida não começa do mesmo ponto para todos

Se esforço fosse o único critério para o sucesso, então qualquer aluno teria as mesmas chances de vencer na vida. Mas a realidade é bem diferente, como percebi em uma de minhas aulas.

Certa vez, durante uma aula para uma turma dos anos finais do ensino fundamental em uma escola pública da periferia de Vitória, um aluno se recusava a fazer a atividade proposta.

Após chamá-lo à atenção algumas vezes, já sem paciência, determinei que ele se dirigisse à coordenação e explicasse o motivo de sua recusa.

Ele se levantou e saiu da sala, mas algo em sua postura me fez chamá-lo de volta. Eu precisava entender o que estava acontecendo. Então, ainda no corredor, perguntei:

— Fulano, por que você não faz o trabalho?

— Ah, professora… Estou passando por uns problemas…

— Que problemas?

— Professora, meu pai está preso.

No mesmo instante, minha expressão facial mudou. Foi como se, em questão de segundos, um filme passasse pela minha cabeça.

Ele completou, já com os olhos marejados:

— Minha mãe também.

Diante disso, minha perspectiva sobre sua recusa em fazer a atividade mudou radicalmente. 

A questão não era preguiça ou indisciplina. Era algo muito mais profundo. Compreendendo toda a complexidade da situação, apenas lhe disse que fizesse o que conseguisse.

Essa lembrança me fez recordar um texto belíssimo de Marina Colasanti, que faleceu recentemente, em janeiro de 2025: “A gente se acostuma, mas não deveria”.

A gente se acostuma com tragédias cotidianas como essa. Mas não deveria. Para falar a verdade, eu, ao menos, não me acostumo. Toda vez que escuto uma história assim, algo dentro de mim se inquieta.

E então me pergunto: será que esse aluno pode ser juiz?

Quais são as chances reais de que esse menino consiga ingressar em uma faculdade? Ele já começou a corrida da vida em uma posição de extrema desvantagem.

Sua trajetória é marcada por dificuldades que vão muito além da sua vontade ou do seu esforço individual.

Um vídeo alegórico para entender essa discussão se chama “A corrida dos privilégios”, disponível no YouTube.

Nele, um grupo de jovens participa de uma corrida simbólica valendo cem dólares. Antes da largada, o mediador faz uma série de afirmações:

  • Dê dois passos à frente se seus pais são casados.
  • Se você cresceu com uma figura paterna presente.
  • Se teve acesso a ensino privado.
  • Se nunca precisou trabalhar para ajudar nas contas da casa.
  • Se nunca precisou se preocupar com a próxima refeição.

Aos poucos, a cena revela algo muito evidente: nem todos têm as mesmas oportunidades. A corrida não é justa.

Alguns largam quilômetros à frente de outros. E é justamente por isso que o discurso meritocrático precisa ser questionado.

Precisamos falar sobre equidade

O que deveríamos almejar não é uma sociedade que repete o discurso de que “qualquer um pode ser juiz”, mas uma em que todas as crianças tenham oportunidades reais para alcançar esse objetivo, caso assim desejem.

Isso exige que olhemos além da ideia simplista do mérito individual e reconheçamos as barreiras estruturais que limitam o caminho de muitos.

Garantir equidade não significa tirar de uns para dar a outros, mas criar condições para que todos possam competir de maneira justa, independentemente de sua origem.

Porque, quando a largada já é desigual, o esforço individual, por maior que seja, não basta para equilibrar a corrida. Sem equidade, o mérito se torna apenas um privilégio disfarçado de justiça. 

E enquanto não enfrentarmos esse problema de frente, continuaremos vendendo sonhos inalcançáveis a quem nunca teve a chance de competir de verdade.

Larissa O’Hara Colunista
Colunista
Graduada, mestra e doutora em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Possui especialização em Revisão de Texto e em Psicopedagogia.