Transformar um incentivo fiscal em dinheiro virou mais um problema para fechar as contas da Arena Corinthians. Quase três meses depois do encerramento da Copa do Mundo, clube e Odebrecht ainda não tiveram acesso integral aos R$ 420 milhões em CIDs, os Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento concedidos pela Prefeitura para a construção do estádio. Parte dos títulos ainda não foi emitida e, pela lei, só após a emissão total os papéis poderão ser negociados no mercado.
Falta liberar R$ 70 milhões dos R$ 420 milhões. O valor dos CIDs corresponde a quase 50% do custo total da obra. Segundo fontes ligadas à construtora, essa demora gerou problemas na equação financeira. Para tocar a obra, foi necessário obter empréstimos em bancos privados, encarecendo a dívida que deverá ser paga pelo clube.
Além disso, com a demora da emissão da parcela restante dos CIDs, os títulos não sofreram correção pela inflação como estava previsto na elaboração do projeto. Clube e Odebrecht calcularam perdas de até R$ 80 milhões pela falta de correção. Ao traçar o projeto de engenharia financeira do estádio, já estava previsto que o Corinthians só poderia vender os títulos depois da Copa do Mundo – os CIDs estavam atrelados à realização da partida de abertura do Mundial, o que de fato ocorreu em 12 de junho.
No entanto, foi feita uma projeção de que a emissão dos títulos fosse realizada entre março de 2012 e junho de 2013. Os R$ 420 milhões em títulos valeriam mais na hora de vendê-los no mercado. Os principais compradores são grandes empresas pagadoras de impostos, como bancos e shopping centers, que abatem o valor no pagamento de ISS ou IPTU.
A lei que aprovou a cessão dos R$ 420 milhões para a construção do estádio foi sancionada na gestão de Gilberto Kassab (PSD). Mas todas as liberações foram feitas já na gestão Fernando Haddad (PT).
O Estado apurou que a Prefeitura nunca considerou a emissão dos títulos nos moldes elaborados pela equipe gestora do estádio, uma vez que a obra só ficou pronta às vésperas do Mundial e os títulos seriam emitidos ao longo da conclusão do projeto. O Tribunal de Contas do Município (TCM) também já discutiu a emissão dos títulos – uma dessas liberações foi contestada. A última parcela dos CIDs deve ser emitida até novembro.
O Corinthians e a Odebrecht já haviam tido problemas com a demora na liberação do empréstimo do BNDES, de R$ 400 milhões, outra ponta da equação financeira para erguer o Itaquerão. Houve mudança no banco repassador e o clube precisou dar como garantia bancária o terreno da Fazendinha.
O custo da obra pulou de R$ 820 milhões para R$ 985 milhões. Durante a construção, houve um termo aditivo no contrato. Esses R$ 165 milhões a mais se devem a readequações no projeto original.
Por causa dos juros bancários e dos empréstimos-ponte, já quitados, o custo do estádio saltou para R$ 1,170 bilhão. Por isso, além do empréstimo de BNDES, que começará a ser pago na metade do ano que vem, foi preciso outro empréstimo de R$ 350 milhões para tocar a obra.
Esse novo empréstimo bancou também as estruturas complementares exigidas pela Fifa para a realização da Copa do Mundo. Houve uma longa queda de braço, mas quem pagou foi o clube.
RECEITAS
O Corinthians conta com a venda dos naming rights por R$ 400 milhões para quitar boa parte desses empréstimos. Até agora, no entanto, não houve negócio, embora o clube já tenha ficado bem perto de anunciar o nome da empresa que dará nome ao estádio.
Outra fonte de receita importante, além da bilheteria, é a venda de camarotes (89) e cadeiras cativas (4 mil lugares estarão disponíveis). Os camarotes devem ser negociados por temporadas (três, cinco ou sete anos). Segundo o clube, 13 unidades já foram vendidas e outras 16 estão reservadas.
Outras fontes de receita, como estacionamento e comercialização de produtos, também serão importantes para angariar recursos, avalia o clube. O estádio teria capacidade total de arrecadação de cerca de R$ 100 milhões por ano.
O Itaquerão passa por uma readaptação após o Mundial. As arquibancadas provisórias estão sendo removidas – o setor Sul está mais avançado que o Norte. Atrás dos gols, onde foram instalados esses assentos, serão colocados novos telões. A cobertura de vidro também está encomendada: ela será transparente e deve ser instalada até o final deste mês. A Odebrecht pretende concluir todas as obras do Itaquerão até o final deste ano.