O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou nesta semana que irá aplicar tarifas de importação de 10% aos produtos oriundos do Brasil – de acordo com o governo americano, as taxações terão efeito imediato. No dia seguinte ao anúncio, as principais Bolsas do mundo operaram em queda, com os investidores em alerta em relação às possíveis consequências na inflação e no crescimento das economias.
O diretor econômico da Futura, Orlando Caliman, avalia que os estados conhecidos como “onças brasileiras” – ou seja, aqueles fora do eixo Rio-São Paulo e que se destacaram como motores da economia brasileira nos últimos anos – estão mais bem preparados. Entenda.
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Por Orlando Caliman*
Num movimento antiliberal extremo, de dimensões equiparáveis ao realizado no enfrentamento da grande depressão da década de 30 do século passado, que aliás, ajudou a afundar mais rapidamente a economia americana e internacional naquela ocasião, Trump anunciou na última quarta-feira (02) o seu já prometido “tarifaço” da libertação americana.
No entanto, tudo indica assemelhar-se mais a um movimento de enclausuramento do que de libertação, cujos efeitos já são, historicamente, sobejamente sabidos, teoricamente suportados e empiricamente testados. Na essência, estamos falando de algo com forte conteúdo recessivo para a economia americana e global.
Especificamente para o Brasil, a dosagem tarifária imposta, mesmo que acima das expectativas do mercado, mas especialmente relativizada no conjunto geral dos demais países, mostra-se até mais amena em termos de potenciais impactos negativos. A alíquota de 10% situa-se no menor patamar da escala. Porém, nos casos do aço e alumínio, permanece a alíquota de 25%, não cumulativamente aos 10%.
Agora, o movimento é de cálculos numéricos dos impactos. Naturalmente, especificidades, realidades diferenciadas, graus de integração e capacidade de adequação às novas circunstâncias ensejarão intensidades diferentes entre potenciais perdas e ganhos. E em se tratando de Brasil, mercados regionais responderão de forma diferenciada.
Nesse aspecto, mercados regionais – cujas trajetórias se mostram até então mais firmes em crescimento, organização, integração interna e externa – estarão mais preparados para o enfrentamento de novos desafios e oportunidades. Compõem esse conjunto diferenciado o Paraná, Santa Catarina, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Goiás.
Esses estados, também denominados de “onças brasileiras” por se postarem no topo em termos de desempenho de suas economias, se mostram mais preparados por uma série de fatores. Dentre esses, gestão pública eficiente, qualidade das instituições públicas e privadas, solidez financeira e fiscal, competitividade, infraestrutura, adaptabilidade e capacidade de resposta às circunstâncias adversas, abertura externa que os qualificam e os credenciam na busca de novas oportunidades e mercados.
Por óbvio, diante das novas circunstâncias em movimento, por conta do “tarifaço” libertário americano, cada um desses mercados regionais deparar-se-á com situações diferenciadas em termos de exposição ao mercado americano. Da mesma forma em relação às oportunidades de novos mercados.
No caso da economia capixaba a exposição ao mercado americano equivale a aproximadamente 8,4% do PIB – dados de 2024. Bem maior do que o Brasil, cujas exportações para os EUA equivalem a 1,7% do PIB. Merece, assim, uma avaliação mais apurada.
*Orlando Caliman é economista, ex-secretário de Estado do Espírito Santo e diretor econômico da Futura Inteligência
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