Todo pai deve ter aquela expectativa para ver seu filho ou filha começar a ler ou escrever, não é mesmo? Aquela ansiedade também acaba atingindo os pequenos, que devem ser incentivados desde cedo no ambiente familiar e escolar.
O desenvolvimento cognitivo e intelectual se inicia ainda na infância. É nesse período que a primeira identificação das letras acontece, seja por meio de brincadeiras, músicas e histórias que são colocadas num contexto infantil.
Foi assim na família de Ana Julia Miranda, de 8 anos. Por conta da pandemia do coronavírus, a pequena precisou ficar cerca de dois anos sem ir à escola presencialmente, no entanto, teve incentivo dentro de casa para iniciar o processo de alfabetização.
“A avó e a tia dela compraram as letrinhas do alfabeto e isso acabou despertando a curiosidade na Ana. Como ela frequentava a casa da avó, foi se interessando e aprendendo aos poucos”, explica a mãe, Jeane Miranda.
Caso parecido com o da família de Antônia Pinheiro, também de 8 anos. No entanto, foi a partir de um incentivo da escola que a menina foi se desenvolvendo. A professora enviava um livro por semana para que os alunos lessem.
“Ajudou muito. Na escola onde ela estuda, em Vitória, eles trabalham com diversas atividades para conhecer o alfabeto. A professora incentiva bastante com brincadeiras, recortes, desenhos. É muito importante para nós, que somos mães. Percebo que a Antônia melhorou até em atividades do cotidiano por conta da leitura”, conta a mãe, Eliana Pinheiro.
Sala de aula precisa estar preparada
O ambiente escolar também é essencial nesse processo e o estímulo para alfabetização ocorre nele. A sala de aula precisa ser organizada e estruturada para despertar o interesse dos alunos a esse universo das letras e da escrita.
O lúdico desperta o desejo do saber, a vontade de participar e a alegria da conquista, as brincadeiras passam a ser interessantes no processo de alfabetização e a concentração do aluno fica melhor, proporcionando a assimilação dos conteúdos com mais facilidades e naturalidade.
Para a pós-doutora em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Cleonara Schwartz, a alfabetização na infância precisa ser valorizada e trabalhada com atenção.
“A alfabetização é um processo em que a criança é inserida de uma forma mais sistemática ao mundo da cultura escrita, é onde ela aprende a lidar com a cultura escrita para interagir com o mundo. É um momento muito importante, inicial da etapa da educação, que precisa ser valorizado e incentivado”, ressalta Cleonara.
Em Vitória, as salas de aula dos primeiros anos do ensino fundamental foram montadas pensando nesse desenvolvimento da criança e os professores incentivados a despertar a curiosidade dos alunos.
Um exemplo é a Escola Municipal de Ensino Fundamental Custodia Dias de Campos, que fica em Bairro de Lourdes, nas salas de aula o alfabeto fica no quadro e há cartazes espalhados por todo o ambiente.
Para a professora do 2º ano, Lana Emerich, a alfabetição precisa ser visto pela crianças como um processo natural.
“Nós aproveitamos esse momento de curiosidade das crianças para explorar e desenvolver as habilidades, seja com músicas, poesias ou projetos de literatura que acabam enriquecendo esse processo com as crianças”.
Ainda conforme a professora, o ensino oferecido é resultado do trabalho em equipe e justamente por conta do preparo do corpo docente que as escolas municipais de Vitória conseguem alcançar a alfabetização total até o final do segundo ano do ensino fundamental.
“Eu não faço a alfabetização sozinha, é todo um trabalho da escola e de toda a equipe, bibliotecárias, professora do projeto de leitura. Também é necessário que haja pensamento único dos Poderes. O governo federal tem uma meta, mas é necessário que as esferas estaduais e municipais tenham apoio com políticas públicas favorecendo o trabalho feito nas escolas”, ressalta a professora.
Plano estabelece metas para a Educação
Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais caiu para 5,6% em 2022. Uma redução de pouco mais de 490 mil analfabetos no país, se comparados a 2019.
Elaborado pelo Ministério da Educação (MEC), o Plano Nacional de Educação prevê que o país deve erradicar o analfabetismo absoluto e reduzir em 50% a taxa de analfabetismo funcional até 2024.
O plano também estabelece que até o mesmo ano, todas as crianças sejam alfabetizadas até no máximo o 3º ano do ensino fundamental.
A pós-doutora em Educação, Cleonara Schwartz, explica que esse tempo foi pensado em dar oportunidade às crianças que não se desenvolveram ainda.
“É importante entender que esse tempo foi pensado para dar mais um ano às crianças que não aprenderam a ler e a escrever até o segundo ano e aquelas que já haviam sido alfabetizadas, poderiam ter mais um ano para consolidar a aprendizagem. Não existe uma idade certa para ser alfabetizado, mas é necessário que as crianças saiam das idades iniciais alfabetizadas”, explica.
Em Vitória, a meta é que os alunos estejam alfabetizados até o fim do 2º ano do ensino fundamental. O objetivo fica acima da meta proposta pelo MEC e é trabalhada com afinco pela secretaria de Educação.
“É importante garantir a todos os nossos estudantes o direto à aprendizagem. Por isso, trabalhamos com as avaliações de fluência em leitura e, a partir dos resultados, organizamos as formações de professores, dialogando sobre conceitos e práticas adequadas para cada grupo de estudantes. É preciso ter intencionalidade nas ações”, afirma a secretária de Educação de Vitória, Juliana Rohsner.
Como incentivar os pequenos fora da escola?
Para despertar atitudes e reações com o desconhecido, as brincadeiras lúdicas são essenciais para as crianças. Além disso, elas também os ensinam a lidar com as emoções, construir a própria personalidade e estabelecer suas individualidades.
Exemplo dessas brincadeiras são os jogos motores, como o pique-pega, os cognitivos, como os jogos de tabuleiro, e os afetivos, como a tradicional amarelinha.
Todos esses exemplos acabam por potencializar a capacidade de resolver problemas, a criatividade e o poder de investigação da criança. Além de que os pequenos também aprendem sobre limites, regras e organização.