Faltando cerca de um mês para o fim do primeiro semestre do ano letivo, estudantes da rede estadual de ensino reclamam do baixo rendimento fora de sala de aula e da dificuldade de acesso a atividades online. Para grande parte dos 230 mil alunos da rede estadual, é como se o ano letivo estivesse completamente paralisado, apesar das atividades enviadas pelos professores via internet.
As aulas estão paralisadas no Espírito Santo desde o dia 17 de março, em função da pandemia do novo coronavírus. Desde então, o acesso dos estudantes da rede estadual a atividades pedagógicas tem ocorrido basicamente por meio de videoaulas e de conteúdos online.
De acordo com a Secretaria de Estado da Educação (Sedu), os conteúdos ofertados são da base nacional comum curricular e foram disponibilizados com o objetivo de manter o contato do aluno com o professor e o vínculo com a escola.
A Sedu recomenda que os alunos continuem realizando as tarefas, embora elas não contem como dias letivos. Por enquanto, valem apenas as aulas presenciais, dadas entre fevereiro e março.
“O que está acontecendo não são aulas. Então nós vamos ter que retomar o cronograma, o chamado calendário acadêmico, de onde parou. Não dá para considerar como aula dada essas atividades que são desenvolvidas irregularmente e desigualmente pelos alunos e sem uma orientação”, destacou o doutor em educação Itamar Mendes da Silva.
“Não vai ser possível que a gente finde o ano letivo de 2020 no ano civil 2020. Nós vamos adentrar 2021 para dar conta de cumprir a quantidade de horas estabelecidas”, completou.
Um dos estudantes da rede estadual de ensino que têm tido dificuldade de manter a rotina de estudo, durante a pandemia, é Milena Silva Vieira, de 15 anos, moradora do bairro Vista Dourada, em Cariacica. Ela conta que, pelo computador, acessa um portal da internet alimentado pelos professores, que postam periodicamente videoaulas, além de atividades objetivas e discursivas para os estudantes. “Os conteúdos chegam por semana. Cada semana é uma matéria diferente, de acordo com a programação dos professores”, relata.
No entanto, a adolescente reclama que o rendimento do estudo em casa não tem sido o mesmo das aulas presenciais. “Não é 100% eficiente, mas um pouquinho dá para aprender. Até porque está complicado, a gente está no meio de uma pandemia. Então a gente não está 100% emocionalmente também, como a gente estava antes. É complicado estudar em casa, ter uma rotina, mas, na medida do possível, está dando tudo certo”, afirmou.
Para muitos, um dos grandes problemas tem sido conseguir acessar as atividades enviadas pela internet. É o caso do estudante Yeshua Miguel, de 14 anos, que não tem conseguido fazer as atividades passadas pelos professores por não ter um computador ou uma internet Wi-Fi em casa.
Por causa disso, o menino usa o celular da mãe, a designer de produtos Kézia Alice dos Prazeres, para estudar. No entanto, a internet do aparelho não funciona bem na casa da família, em Feu Rosa, na Serra. Além disso, quando Kézia sai para trabalhar, precisa levá-lo.
“A gente utiliza a internet da associação de moradores. Infelizmente, lá a internet acabou sendo cortada e aqui em casa o sinal chega muito ruim no celular e a gente não consegue acessar. Cada matéria — ele está no oitavo ano — tem um link e aí você, na verdade, não precisa nem baixar. Pelo link, você consegue acessar direto o formulário que já vem o resumo e as atividades. Mas a internet precisa estar legal para que ele possa preencher os formulários e ler o resumo, porque é online”, contou a mãe do estudante.
Sem condições de estudar, resta ao adolescente ajudar com os afazeres domésticos. “Está sendo bem ruim ficar sem fazer os deveres. Aí arrumo casa, ajudo os irmãos”, contou Yeshua.
“É muito preocupante, devido ao fato de que a gente tem consciência de que a desigualdade social é enorme, principalmente pela falta de conhecimento. A humanidade já começou errada, fazendo com que aqueles que eram diferentes, os excluídos, não tivessem acesso ao conhecimento. E essa pandemia está trazendo essa realidade de novo. O que vai ser do futuro do meu filho? Enquanto ele está perdendo um ano, sem atividades, as outras pessoas que têm uma classe social melhor que a nossa continuam estudando”, desabafou Késia.
A produção da TV Vitória/Record TV perguntou para a Sedu se a previsão de que as atividades presenciais nas escolas permaneçam suspensas até o final de junho se mantém. No entanto, não houve resposta da secretaria até o fechamento da reportagem.
Com informações da repórter Fernanda Batista, da TV Vitória/Record TV