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Ativista adolescente, capixaba quer mudar o mundo desde os 5 anos

Marina, que completa 18 anos no fim de março, se dedica desde os 5 a tentar transformar o mundo

Foto: Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal

Mudar o mundo, corrigir as injustiças, encontrar um propósito. Tudo isso faz parte do ímpeto humano. Afinal de contas, é por meio da caridade e da ajuda ao próximo é que se torna possível tornar o planeta um lugar um pouco mais acolhedor. 

Normalmente este desejo de mudança tem início na adolescência, quando começamos a nos descobrir como entes políticos no mundo. Na universidade, no contato com outras culturas e realidades. 

Acontece que no Espírito Santo, quem está na vanguarda da transformação, é uma capixaba que ainda nem chegou à maioridade, a estudante Marina Campos Cunico, que dedica a vida a causas sociais. 

Marina, que completa 18 anos no fim de março, se dedica desde os 5 a tentar transformar o mundo. Tudo começou quando ela folheava um álbum de fotos da família. 

Ali, ainda criança, ela teve contato com realidades desafiadoras que ocorreram na própria família, quando uma prima enfrentava a leucemia. Teve início então, sua primeira ação social. 

“Começou quando eu tinha 5 anos, folheando um álbum de fotos. Vi a foto de uma prima careca e depois de peruca. Eu era muito pequena e não entendia muito bem, mas minha mãe me explicou a questão das pessoas com câncer. Minha prima teve leucemia. Minha mãe me explicou sobre o incentivo da peruca, como ajuda a autoestima da mulher, então decidi cortar o cabelo”, contou. 

A causa se tornou uma bandeira para a pequena, que passou a incentivar outras pessoas a cortarem os cabelos para ajudar pacientes em tratamento contra o câncer. 

De acordo com ela, foi durante este período que teve sua primeira experiência transformadora com as causas sociais, quando pôde conhecer alguém diretamente afetado por suas ações. 

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“Eu conheci a mulher que recebeu a peruca com o meu cabelo, foi uma experiência incrível e que me afetou muito, mesmo sendo tão nova. Fui incentivando pessoas a cortar o cabelo para doar. Nessa mesma época também comecei a ser voluntária em outros projetos, trazendo também a questão do meio ambiente para a minha casa, que é uma bandeira que tenho. Com 5 anos comecei os projetos dos cabelos”. 

Até hoje a jovem recebe apoio e doações de todo o país, de pessoas que cortaram os cabelos para ajudar na autoestima de mulheres que perderam os seus por conta dos tratamentos. São ajudas de estados como São Paulo, Rio de Janeiro e de diversas outras partes do Brasil, que também já foram enviadas para todo lugar.

Causas ambientais e prêmio do Disney Channel 

Ano depois de sua primeira pequena revolução, aos 6 anos de idade, Marina deu continuidade aos projetos. Desta vez, mais engajada nas causas ambientais e na reciclagem. 

Foi também naquele ano, que foi premiada pela emissora de televisão norte-americana Disney Channel, com o projeto “Amigos Transformando O Mundo”. E como não bastasse o prêmio, Mariana foi a criança mais nova a participar da programação. 

O prêmio funcionava da seguinte maneira: crianças escreviam um projeto para um mundo melhor, e o vencedor, ganharia um incentivo de 2 mil dólares para dar continuidade ao programa. 

Naquela época, Marina ainda estava iniciando a alfabetização e contou com a ajuda da mãe para escrever o projeto. 

“Eles ligaram e ficaram um pouco chocados, não acreditavam realmente se eu conseguiria dar continuidade ao projeto. Eu já fazia projetos de reciclagem nesta época”. 

A partir dali, ainda criança, começou a se voluntariar em projetos sociais em comunidades periféricas do Espírito Santo. “Desde os meus cinco aninhos”, define a ativista. 

Assistência a famílias carentes na pandemia 

Em março de 2020, o Brasil fechou. Com a pandemia de covid-19 era necessário ficar em casa. Para famílias carentes, isto significava menos dinheiro no bolso e, consequentemente, menos comida na mesa. 

Foto: Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal

A pequena ativista, junto da mãe, a funcionária pública Fabiana Campos Franco, deu início a um programa de doação de cestas básicas para comunidades carentes no Estado. 

Além das cestas, também era enviado um kit com material de higiene e limpeza para que as famílias pudessem cuidar da saúde. 

“Este ano o projeto faz 4 anos, começou no dia 30 de março de 2020. Foi vendo as pessoas que estavam em vulnerabilidade social por conta do covid, que conseguiam se manter, em sua maioria, de maneira informal e que não estavam assistidas pelo governo. Pessoas que vendem bolo de pote, várias histórias”, contou. 

Ela conta que a família começou a colher pedidos e aos poucos criou o projeto “Bem Que Contagia”. O programa doa alimentos e material de prevenção ao vírus de acordo com a necessidade de cada pessoa ajudada. 

Ao todo, foram distribuídas 20 mil cestas básicas para famílias carentes do Espírito Santo E logo, a causa foi abraçada por outros projetos sociais, que ajudaram nas entregas. 

“A gente foi vendo o projeto crescer e a ideia era realmente contagiar com o bem. Fazíamos lives de arrecadação, eu dava palestras e doava todo o dinheiro para o Bem Que Contagia. A gente foi ajudando as pessoas para chegar num número maior e hoje o Bem Que Contagia engloba tudo que eu faço”, relata.

Durante este período, Marina e a mãe começaram a notar ajuda de pessoas que já haviam sido auxiliadas pelo projeto. Famílias carentes, agora também se envolviam em boas ações. 

“Eu sou grupo de risco, e na pandemia ficava em casa. De repente, quando estávamos em casa, recebíamos um pix de R$ 1, R$ 2. E eram pessoas que a gente já tinha ajudado desta forma. Elas diziam: é muito pouco, mas eu consigo ajudar. Eu e minha mãe chorávamos horrores, a gente ficava muito feliz. A pessoa que doa não entende muitas vezes, mas R$ 1 significava comprar dois sabonetes, é uma família que pode lavar as mãos por um mês ou por mais tempo. Elas podem ajudar as pessoas de pouquinho em pouquinho”. 

Parceria para assistência alimentar

E para quem já está impressionado com tantas empreitadas, saiba que ainda há espaço para muito mais. Atualmente, o projeto ” O Bem Que Contagia” conta com uma parceria para dar assistência alimentar a diversas famílias. 

Foto: Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal

A parceria funciona da seguinte forma. As famílias recebem um cartão alimentação, com o valor de uma cesta básica. Com isso, elas podem fazer compras para garantir um mês de dispensa cheia. 

Marina reforça que a medida funciona como forma de garantir alimentação a mais para as famílias, além da cesta básica doada pelo projeto. Além disso, é uma forma de fomentar pequenos comércios locais. 

“Temos uma parceria com a ticket para este cartão. Muitas vezes as pessoas recebem a cesta básica, mas o arroz acaba rápido, precisava de um leite, uma verdura. Damos este cartão. Eles só podem comprar itens básicos. Então não passa bebida alcoólica ou coisas do tipo. Damos também a orientação de comprarem no comércio local, as pessoas ficam assistidas e o comércio movimentado, é uma parceria muito boa” 

Lojinha da Marina e apoio a crianças 

Por conta de uma realidade difícil, muitas crianças passam pela infância sem perceber. Muitas delas não têm acesso a experiências comuns deste período da vida. 

A ausência de experiências básicas como ter acesso a itens de lazer e brinquedos, foi o que motivou Marina a começar a “Lojinha da Marina”, que em 2023 viveu um novo momento. 

Foto: Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal

A lojinha acontece com doações de produtos novos e usados, doados por apoiadores do “O Bem Que Contagia”. São brinquedos, itens de vestuário, materiais para as crianças curtirem.  A programação acontece em três dias: sexta-feira, sábado e domingo.

Crianças de uma comunidade são cadastradas,  e em um mês, a lojinha é montada naquele lugar. Os “vendedores” são os próprios voluntários do projeto, que auxiliam na programação. 

As crianças recebem oficinas  com atividades diversas, a recompensa pelas atividades é ganhar a moeda “Amor Real”, utilizada para comprarem o que quiserem na loja, cada pequeno pode escolher até 4 itens. 

A primeira lojinha aconteceu para 100 crianças e no ano passado, houve a primeira edição em um shopping, que contou com cerca de 1 mil pequenos no espaço. 

“Tem crianças que pegam tudo para a família. “Isso é do meu pai, isso para minha mãe”. Há crianças que dizem que ‘eu nunca pude dar um presente para a minha irmã, este aqui é dela’ Quando vou poder comprar um presente para a minha família?. É empoderador ver as crianças lidando com esta situação, entendendo como funciona o dinheiro, é incrível”, se emociona Marina. 

Ainda de acordo com Marina, a experiência serve para que os doadores entrem em contato direto com as pessoas que ajudam. 

“Foi a primeira experiência de muitas crianças dentro de um shopping. Algumas até fora da comunidade. É muito impactante ver os voluntários, doadores, em contato com elas, é uma experiência incrível poder furar as bolhas. As pessoas veem as diferenças de realidade. Há esta troca de carinho. É muito emocionante, muitas vezes pessoas saem da lojinha chorando”. 

Bolsista e orgulhosa

Marina começou o ano de 2024 como uma universitária. Ela foi aprovada como bolsista no curso de psicologia da Fundação de Assistência e Educação (Faesa). O Ensino Médio e fundamental também foi cursado com bolsa no Instituto Federal de Educação (Ifes). 

O orgulho de ser bolsista é algo que a ativista transmite a crianças enquanto conversa com elas, pois, é de através da educação que crianças de uma realidade carente possam transformar suas vidas. 

Isso acontece em outro projeto da “O Bem Que Contagia”, a Feira das Profissões, que mostra aos pequenos os diferentes tipos de caminhos profissionais que existem e que podem mudar suas realidades. 

“Uma coisa muito importante para mim é que sou bolsista. É meu sétimo ano de bolsa e esta é uma parceria muito importante, porque a Faesa sempre foi uma grande parceira. mais que isso, a Faesa nasceu dentro de uma comunidade periférica”, disse. 

A jovem relata que a luta pelos estudos é fundamental para que crianças e adolescentes possam garantir um futuro melhor e mais confortável para suas famílias. 

“Este é um dos motivos para eu escolher a universidade. Ser bolsista é mostrar aos meninos de periferia as oportunidades que eles podem ter de mudar a realidade deles. A gente trabalha muito com o empoderamento dos meninos, que eles podem ajudar a família, melhorar a vida. Trabalhamos muito pelo estudo com a Feira das Profissões, junto com o Instituto Estrelar”. 

Esta realidade é bastante conhecida pela família de Marina. Ela relata que a avó materna foi a primeira a conseguir ingressar no ensino superior. Com dois diplomas, foi ela que incentivou os irmãos, filhos e netos a estudar. 

“Minha avó foi a primeira a estudar, tem dois cursos superiores. Ela incentivou os filhos e os irmãos a estudarem, transformou a realidade da minha família”. 

Nunca é cedo ou tarde, sempre é a hora certa de começar

Com tudo isso, Marina ainda tem fôlego para palestrar e faz parte do Movimento Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Uma das metas, é até 2030 atingir metas como “fome zero”, igualdade de gênero e outras causas e tópicos. 

Esta é uma força tarefa que reúne jovens de 169 países diferentes, incluindo o Brasil, que tem Marina como uma das principais representantes. O sucesso é tanto, que a jovem já foi convidada em programas de rede nacional, como o comandado pelo apresentador Rodrigo Faro. 

Ela conta que quando foram realizar a gravação para o programa, houve uma reunião significativa com pessoas que já foram ajudadas por ela na própria casa. 

“Quando a gente foi fazer a entrevista, eles pediram para a gente trazer pessoas. Na época, postamos no facebook, que faríamos uma macarronada e contar nossa história e pessoas que já foram ajudadas poderiam ir lá em casa. Muita gente apareceu, pessoas que eu nem me lembrava que tinha ajudado. Achei incrível, porque mesmo que eu não lembre, a gente planta uma sementinha e isso transforma. Outras pessoas se envolvem e fazem o bem, tudo contagia”, disse. 

Às pessoas que se unem às causas, Marina tem um nome: é a teia do bem. De acordo com ela, o nome vem do fato de uma teia ser formada por várias pequenas partes que se complementam e se completam. 

E é isto que ela trabalha em suas palestras, contagiar as pessoas com o bem e construir a cada dia mais uma parte da teia. Ela afirma: não existe momento certo, sempre é uma boa hora para começar. 

“Nas palestras conto um pouquinho da minha história. E quando falo com pessoas da minha idade e também com os adultos, meu objetivo é mostrar que todo mundo pode começar. Eu fui agraciada de descobrir meu propósito com 5 anos, mas cada um pode descobrir até com 50. Começar do pequeno, ajudar independente da forma. Se você conseguir ajudar uma pessoa, você já transformou um mundo inteiro”. 

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