Reconhecido por seu entusiasmo pelo jazz e pela bossa nova, o professor de inglês Luiz Paixão morreu na manhã desta terça-feira (01) aos 96 anos, em sua casa, na região boêmia do Triângulo das Bermudas, na Praia do Canto, em Vitória.
Figura cativa e de referência nos círculos de música instrumental da Capital, Paixão deixa três filhos e sete netos e um riquíssimo acervo de mais de 3 mil itens que reúne gravações e itens raros em formato de CDs, vinis, fitas-cassete, VHS e DVD exaltando o ritmo musical que consagrou Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Miles Davis, John Coltrane, Dave Brubeck entre outros.
O sepultamento acontece na tarde desta terça, no Cemitério Parque da Paz, em Ponta da Fruta, Vila Velha. A cerimônia será restrita à família. De acordo com familiares, a causa da morte foi uma broncopneumonia aspirativa. Paixão faleceu ao lado da filha, Gilda.
“Em vida, o tio Bilo, como a gente carinhosamente o chamava, nunca guardou o conhecimento que tinha da música só para si. Ele sempre compartilhava o que sabia, as histórias que viveu com grandes nomes do jazz e da bossa com quem quisesse. Seria ótimo se nossa família doasse todo esse acervo para alguma instituição pública a fim de que mais e mais pessoas tivessem acesso, pois era do espírito dele dividir toda essa maravilha chamada de boa música”, afirmou, emocionada, a sobrinha Leila Barros.
Ela não exagera ao afirmar essa convivência que o tio teve com grandes ícones da música. A família do professor morava no Rio de Janeiro durante a década de 50 do século passado e viu nascer a bossa nova na própria casa.
“Tínhamos uma tia que era diplomata de carreira e colega de Vinícius de Moraes, que frequentava a nossa casa e fez amizade com Paixão”, explica.
Paixão teve essa sorte: ao longo de sua trajetória, ele teve contato com grandes nomes da música nacional e internacional. Estudante de inglês, ganhou bolsa de intercâmbio do governo americano nos anos 50 do século passado. O jazz o atraiu porque era mais um exercício para se praticar o idioma.
Para um fã de jazz, estava no lugar certo e na hora exata, já que testemunhou a última fase da chamada Era de Ouro da música americana. O rock ainda estava no berço. Por lá, além de Billie, encontrou-se com Stan Kenton e Dave Brubeck (que o reencontrou anos depois em Guarapari, numa temporada de verão. em 1978, quando o músico se apresentou no Espírito Santo).
Voltando ao Brasil, virou uma espécie de embaixador do jazz no Espírito Santo. O consulado americano lhe enviava discos para que ele passasse para as rádios daqui. Era a estratégia da propaganda americana: dominar a simpatia dos países por meio do cinema e da música. Os LPs que ele achava interessantes emprestava para as emissoras. Mas pegava de volta. Assim, foi fazendo sua coleção.
Grandes nomes
Nas viagens de intercâmbio, Paixão conheceu grandes nomes. “Uma das histórias foi que ele era fã de Billie Holiday. Depois de uma apresentação, ele conseguiu ir ao camarim falar com ela. O cachorro dela, que ela levava para todo lugar, não simpatizava com ninguém. Mas, com ele foi o contrário. A própria Billie achou aquilo inesperado e surpreendente e ele caiu nas graças dela. E lhe deu uma missão: tomasse conta do cachorro enquanto ela cantava! Olha o privilégio!”, conta Leila.
Ela lembra que o tio foi um privilegiado por ter vivido num dos melhores momentos de produção cultural mundial e ter conhecido muitos desses artistas protagonistas. “Apesar de não saber tocar nenhum instrumento, tinha noção do que era boa música e gostava de incentivar esse gosto em todo mundo que se aproximava”, finaliza.
O amante da boa música foi tema do documentário “Luiz, Paixão pelo Jazz”, dirigido por Eurico Scaramussa e lançado em 2018. O filme realiza uma jornada pelo mundo do jazz e, nesse passeio, quem conduz ´é o próprio Paixão através de suas memórias, discos e autógrafos.