Geral

Colonização do ES: historiador diz que biodiversidade humana do estado foi perdida

Nesta quinta-feira (23) é comemorado 484 anos da chegada do português Vasco Coutinho

Foto: Capixaba da Gema
Prainha, em Vila Velha, local da chegada dos portugueses em 1535

Há 484 anos o português Vasco Fernandes Coutinho aportava onde hoje é a Prainha, em Vila Velha. Entre tantas consequências da colonização do solo espírito-santense, iniciado naquele 23 de maio de 1535,  não se pode ignorar uma das principais: a perda da biodiversidade humana, considerada pelo professor do departamento de História da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Luiz Cláudio Ribeiro, uma das mais relevantes em todo esse processo.

“Considero como maior perda. A colonização provocou um grande genocídio dos grupos que habitavam aqui há milhares de anos. Eram grupos que tinham modos de vida muito avançados, com diversidade cultural, exploração da floresta, vida comunitária, muitas saberes que foram perdidos por conta de um domínio estrangeiro sobre a nossa terra”, disse o professor.

Foto: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES)
Mapa do Espírito Santo de 1590

Além disso, Luiz Cláudio Ribeiro atribui esse aniquilamento também a doenças. “A perda aconteceu não só pelo modelo adotado na colonização, da conquista, da escravização dos índios, e depois também com pessoas africanas, mas também por conta de doenças que foram transmitidas aqui e causaram a morte de um percentual talvez até maior que 90%, principalmente na região mais costeira do Espírito Santo”.

O historiador lembra que, quando a economia foi impulsionada pela produção de cana-de-açúcar e café, principalmente, esse processo de desaparecimento  tornou-se ainda mais aparente. Nessa época, diferentes grupos habitavam a área, como tupi-guarani, que viviam onde hoje é Aracruz. Outros viviam territórios onde muitos eram adversários e disputavam área de caça.

“O que a gente pode dizer é que essa biodiversidade encontrada (pelo português Vasco Coutinho) foi aquela que se conservou até o fim do século XVIII. Começou a ser descaracterizada com chegada de colonizadores para plantar cana-de-açúcar e algodão, além da abertura de fazendas, sendo intensificado no século XIV com a mão de obra europeia e a ascensão do café”, afirmou.

Foto: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES)

Quando Vasco Coutinho chegou, no dia 23 de maio de 1535,  à região depois nomeada Vila Velha, a área era tomada por floresta diversificada, com fartura de peixes e animais caçados pelos índios. O patrimônio conquistado era uma terra que resultara de milhares de anos. “Era um estado rico e exuberante de mata atlântica”, conta Luiz Cláudio Ribeiro. 

Os indígenas, de acordo com o professor, abriam as chamadas clareiras, áreas com pouca vegetação e muita abertura de luz, estabeleciam suas ocas e levavam consigo novas sementes, plantavam mandioca, milho, além de desenvolver espécies junto àquelas que já existiam nesses espaços. 

Após a colonização e com o passar dos séculos, o desenvolvimento econômico do Espírito Santo se deu pelo impulso agrícola. “A cana-de-açúcar, observada a partir da segunda metade do século XVIII, teve impulso e, logo em seguida, essa economia começa a ser convertida numa economia cafeeira. Então, houve essa substituição para exportar o café, lá por 1870”, explica o professor.

O Espírito Santo se caracterizava como uma economia voltada para exportação, mas uma parte importante era voltada para o consumo interno. “No século XVIII, havia grande produção de madeira, principalmente para construção, móveis e uso naval, produção de tecidos a partir do algodão, além de farinha, peixes secos e de bálsamos também”, frisa Luiz Cláudio Ribeiro.

Com os elementos atribuídos pela escravidão, com a vinda de africanos, e também pela exploração dos índios, o professor acredita que o comportamento social no Espírito Santo resultou no que temos atualmente. “Precisamos de um desenvolvimento econômico inclusivo, caso contrário vamos permanecer com esses conflitos sociais permanentes”, concluiu.