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Estudo aponta que mexilhões de praia em Vitória são contaminados por microplásticos

Estudo realizado pela Ufes mostra que, no litoral capixaba, especificamente em um ponto específico de Vitória e de Guarapari, as águas e os mexilhões estão contaminados com microplásticos; entenda

Foto: Pixabay

Um estudo realizado pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) mostra que, no litoral capixaba, especificamente em um ponto específico de Vitória e de Guarapari, as águas e os mexilhões estão contaminados com microplásticos. 

Foram coletadas 240 amostras do molusco da espécie Perna perna e 40 diretamente da água, em um sítio de aquicultura, em Guarapari, e na praia da Ilha do Boi, em Vitória, nas quatro estações do ano.

As concentrações de microplásticos foram manifestadas em número de partículas por grama (peso), e por indivíduo, no caso dos mexilhões. Já para as amostras de água, foram expressadas em número de partículas por litro.

O resultado considerou a média nos dois locais de coleta. Nas amostras de águas superficiais, houve a concentração de 41,4 partículas de microplásticos por litro. Os mexilhões tiveram a presença de 8,3 unidades de microplásticos por indivíduo ou 1,4 partícula de microplástico por grama.

O autor do estudo que integra sua pesquisa de doutorado intitulada Microplásticos em Bivalves de Importância Econômica da Região Costeira do Espírito Santo, Fábio Bom é orientado no Programa de Pós-Graduação em Oceanografia Ambiental (PPGOAM) da Ufes pelo professor Fabian Sá.

Fábio diz que é possível afirmar que há microplásticos nos ambientes que foram pesquisados. 

“É possível, por meio dos resultados, afirmar que sim, há microplásticos nos ambientes em que pesquisamos. Identificamos que, independentemente da época do ano e do local de coleta, são encontradas partículas de plástico tanto na água quanto nos mexilhões, e isso tende a aumentar no futuro, tendo em vista o descarte irregular de microplásticos e de quantidades enormes de plástico nos rios que chegam aos oceanos”, afirmou.

De acordo com o autor, as partículas de até 5 milímetros podem ser divididas em primárias, que são fabricados para uma aplicação em esfoliantes faciais, cremes dentais (ainda que hoje seja proibido pela legislação o uso de microplásticos na indústria de cosméticos) e pastilhas de resina usadas na indústria plástica.

Elas também podem ser divididas em secundárias, que são produzidos a partir da fragmentação de grandes itens plásticos.  Elas podem entrar no meio ambiente por meio de vazamento durante a produção, o transporte, o uso e por meio do esgoto. “Quando lavamos roupa, por exemplo, as fibras se transformam em micropartículas e vão para a rede de esgoto”, explica Fábio.

Foto: Reprodução / Ufes / Fabio Bom

Bioindicadores de poluição

O pesquisador explica que escolheu trabalhar com mexilhões por o animal ser um bioindicador de poluição, já que são naturalmente filtradores.

“Tudo o que tem na água eles ingerem, e as micropartículas de plástico são de tamanho semelhante às orgânicas, alimento desses animais. Além disso, os mexilhões têm uma importância econômica e social na região, pois servem de alimento para a população. Isso acaba tendo um impacto maior para o ser humano, pois, diferentemente dos peixes, cujas vísceras não comemos, os mexilhões são ingeridos inteiros”, esclarece Bom.

De acordo com estudos laboratoriais, os animais têm impactos no crescimento, na reprodução e nas atividades metabólicas ao ingerirem microplásticos, interferindo negativamente na vida do molusco.

Já o ser humano, pode ter respostas cancerígenas, inflamatórias e algumas complicações em processos respiratórios. Não existem muitos estudos que avaliam as consequências da ingestão de alimentos com os microplásticos.

A falta de legislação específica sobre o tema também é um dos principais problemas para enfrentar a poluição por microplásticos.

“Apesar de existirem leis sobre descarte irregular de resíduos sólidos, o termo microplástico é relativamente novo, começou a ser usado há cerca de 15 anos. Não há nenhum controle sobre quantas partículas estão no ambiente, não há parâmetros sobre esse tipo de poluição, não há nenhuma regulamentação no Brasil e no mundo. O que podemos afirmar é que há micropartículas e que necessitamos de mais estudos e de formatação de legislação”, declara Fábio.

Foto: Reprodução / Ufes / Fabio Bom

LixoMar

O estudo sobre as partículas é desenvolvido pela Ufes como parte do grupo de pesquisa Lixo Marinho (LixoMar), que atua desde 2019 desenvolvendo projetos que contribuem com políticas públicas de combate ao lixo nos mares.

Registrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o grupo tem 21 pesquisadores. Entre eles, 7 docentes da Ufes e da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e 14 estudantes de mestrado, doutorado e graduação.

Um dos coordenadores do LixoMar, Fabian Sá evidencia que a redução do lixo marinho é uma das preocupações da Organização das Nações Unidas (ONU) na Década dos Oceanos, iniciada em 2021 e segue até 2030. 

De acordo com os dados do grupo de pesquisa, em torno de 80% dos resíduos que entram nos oceanos tem origem em atividades terrestres. Eles podem ter sido descartados diretamente nos rios ou passado pelos sistemas de filtros dos esgotos até serem depositados nos oceanos. Estima-se que a maior parte do lixo marinho seja constituída de microplásticos.

Segundo publicações científicas, as estimativas são de que atualmente existam cerca de 51 trilhões de partículas de microplásticos na superfície do oceano. Elas contaminam desde pequenos organismos zooplanctônicos até grandes espécies, como baleias e tubarões. 

Não apenas a saúde dos organismos marinhos são afetados, mas também a cadeia alimentar como um todo, até chegar aos seres humanos.

“As pesquisas que desenvolvemos buscam gerar conhecimento sobre a atual situação da poluição por plástico e propor ações socioambientais e políticas públicas para podermos, ao menos, minimizar os efeitos desse tipo de poluição. É fundamental promover o entendimento científico da realidade brasileira em consonância com uma metodologia de ação participativa junto às comunidades das regiões de abrangência para avançarmos na resolução da problemática quanto ao lixo marinho”, afirma o professor Fabian Sá.