Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) inicia neste mês uma pesquisa detalhada sobre as causas da febre amarela no Estado. O objetivo é investigar os aspectos biológicos e ambientais relacionados à doença.
O estudo terá duração de um ano e será feito por meio de um convênio entre a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Seama), o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) e a Ufes e terá R$ 182.270 de recursos disponibilizados.
De acordo com o secretário de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Estado, Aladim Cerqueira, este projeto visa contribuir para o conhecimento dos processos biológicos e ambientais que favorecem ou até mesmo condicionam o surgimento do surto de febre amarela.
“Considerando que o evento está em curso na região de Mata Atlântica do Espírito Santo, a intenção é aproveitar a oportunidade para coletar o máximo de informações possíveis enquanto o surto não declina, já que esses eventos tendem a ser rápidos, durante semanas ou poucos meses. A pesquisa, portanto, envolve a coleta de informações sobre os primatas e mosquitos durante o período do surto; o processamento genético das amostras, e a modelagem e analises dos resultados”, disse o secretário.
A coordenação de pesquisa está a cargo do professor do Departamento de Ciências Biológicas da Ufes, Sérgio Lucena. “O projeto espera, considerando o ineditismo e peculiaridades do atual surto de febre amarela e a possibilidade de o estudarmos ao longo de seu desenvolvimento, dar contribuições inéditas sobre a ecologia desses fenômenos, que possam ajudar a prevenir eventos semelhantes no futuro, de maneira a contribuir com a saúde pública e a conservação de espécies de primatas impactadas”, explicou o professor.
Objetivos da pesquisa
– identificar localidades em que primatas estão morrendo supostamente pelo vírus;
– coletar amostras de vísceras e carcaças de animais mortos com vistas à obtenção de material biológico para teste, estudo de DNA, estudo taxonômico, anatômico e biogeográfico;
– monitorar a morte de primatas nas unidades de conservação do ES e seus entornos;
– coletar mosquitos transmissores do vírus e enviar ao INstituto Evandro Chagas para identificação e testes virais; implementar um sistema de informações geográficas e uma base de dados sobre o avanço da morte de primatas no ES;
– testar, por modelagens, as hipóteses sobre o surgimento e dispersão da virose no território capixaba;
– investigar a presença de vírus e outros patógenos de interesse em sangue de primatas capturados vivos;
– propor medidas preventivas e ações de conservação visando à recuperação das populações de primatas afetadas pelo surto e contribuir para a difusão de informações que esclareçam a população sobre a natureza desses eventos e a importância da preservação dos primatas.
Mortes
Dois macacos foram encontrados mortos na Universidade Federal do Espírito Santo, no campus de Goiabeiras, em Vitória. Um macaco da espécie sagui da cara branca foi encontrado morto pelo professor Sérgio Lucena.
Vírus
Segundo os pesquisadores, a febre amarela é uma doença viral, causada por um vírus transmitido pelos mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes. No passado ocorreram surtos de febre amarela urbana no país, transmitida pelo Aedes aegypti, mas esta forma foi erradicada na década de 1940, por meio de vacinação, obras de saneamento urbano e do controle do vetor.
Eles destacaram no projeto que todos os casos humanos registrados no Brasil têm sua origem no ciclo silvestre, que ocorre quando o mosquito infectado pica o ser humano, desencadeando a virose.
A morte de macacos em reservas naturais, tanto em Minas Gerais quanto no Espírito Santo, vem ocorrendo em grande escala, de acordo com os pesquisadores. Apesar das mortes atingirem principalmente os barbados, eles afirmam que tem confirmação de morte de outras espécies, como os sauás, saguis, macacos-pregos e evidências de que o muriqui-do-norte, espécie criticamente em perigo de extinção, também pode estar sendo afetada.