Limpa daqui ajeita dali, será que a porta está trancada? Será que o gás está vazando? Tenho que passar exatamente por esse lugar… Mais conhecido como TOC, o Transtorno Obsessivo Compulsivo é um distúrbio do cérebro causado por ansiedade extrema.
O mal, que atinge cerca 3% da população, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é caracterizado por quadros em que uma obsessão provoca compulsões repetidamente cumpridas pelo indivíduo. Medos extremos de contaminação, por exemplo, é um dos ‘rituais’ comuns adotados por aqueles que sofrem com o TOC.
Você já se imaginou limpar a casa com uma escova de dentes? Foi exatamente isso que a capixaba E.S, que preferiu não ter o nome completo divulgado, contou em entrevista ao Jornal Online Folha Vitória. Ela utilizou o objeto para limpar os cantos e quinas da casa com uma escova dental.
“Eu não conseguia limpar a casa sem checar se cada canto estava bem limpo. Pegava uma escova de dentes e limpava cada cantinho. Se eu não fizesse isso não conseguia seguir com meu dia”, explica.
De acordo com o psiquiatra e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo Quirino Cordeiro, associado à OMS, frente ao objeto ou situação do transtorno, o indivíduo pode apresentar perturbação intensa, angústia, sudorese e taquicardia, sintomas que somente são aliviados quando o ritual que desenvolveu é cumprido.
A dona de casa, E.S, que atualmente está com 49 anos, contou que já chegou a ficar mais de uma hora lavando as mãos. “Parecia que eu estava com as mãos sujas o tempo todo. Eu lavava, mas parecia que ainda estavam sujas. Uma vez cheguei a ficar uma hora lavando as mãos de tanta agonia que me dava”.
“Eu pegava uma escova de dentes e limpava cada cantinho. Se eu não fizesse isso não conseguia seguir com meu dia”
Segundo o psiquiatra, o TOC não é resposta a algum trauma sofrido pela pessoa, mas uma disfunção da atividade cerebral. “Não há constatação científica do TOC como resposta do organismo a traumas psicológicos. Ele é um transtorno do cérebro. Então, a pessoa desenvolve rituais e os cumpre repetidamente quando o contato com o fato da obsessão acontece. Por exemplo, se o indivíduo todos os dias, antes de dormir, precisa checar se o gás da cozinha está vazando, e não consegue pegar no sono sem fazer isso várias vezes, já consciente de que o vazamento não existe.”
A dona de casa disse que sofria com a doença desde os 45 anos, e atualmente faz terapia. “Graças ao tratamento já consigo me controlar. Ainda tem algumas coisas que sempre faço, como arrumar uma revista torta ou um tapete que está fora do lugar, mas nada comparado ao que eu fazia há dois anos atrás”.
Quirino explica os tratamentos que podem ser adotados. “Para o TOC, existem duas formas de tratamento: a medicamentosa e a Terapia Cognitiva Comportamental, na qual a pessoa é submetida ao fator de estresse e impedida de realizar este ritual. O método é introduzido gradativamente e com acompanhamento profissional e os resultados dependem do organismo do indivíduo.”
Epidemiologia
Até o início dos anos 80, considerava-se o Transtorno Obsessivo Compulsivo uma doença rara com uma prevalência na população ao redor de 0.05% apenas. Várias razões eram responsáveis por esta baixa estimativa:
– A relutância dos pacientes em informar seus sintomas;
– A falta de reconhecimento da diversidade de sintomas do TOC por parte dos profissionais;
– Dificuldades de diagnosticar a doença;
– O fato de os profissionais rotineiramente não fazerem perguntas sobre os sintomas obsessivo-compulsivos (Rassmusen e Eisen, 1990).
Foi a partir de 1988, com estudos epidemiológicos mais bem desenhados, que se passou a ter uma ideia mais exata da incidência e prevalência do TOC em diferentes populações.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, o TOC é o quarto transtorno psiquiátrico mais comum, precedido apenas pela depressão, fobia social e abuso de substâncias. Atualmente, estima-se a prevalência para toda a vida ao redor de 2.5%. As taxas apresentadas diferem conforme a idade, com prevalências mais altas a partir da adolescência e idade adulta.
Quanto à diferença de prevalência entre os sexos, na idade adulta o TOC costuma aparecer em igualdade entre homens e mulheres, no entanto, em relação ao início dos sintomas, ele ocorre mais precocemente nos homens.
TOC também atinge crianças
A doença alcança uma em cada 100 crianças do mundo, e essas costumam sofrer com o preconceito. Os sintomas são tão sutis que normalmente nem a família percebe.
Um caso comum é o de crianças que ficam angustiadas com arrumação. Normalmente, os indivíduos que sofrem da doença tendem a deixar objetos sempre alinhados ou em ordem alfabética. Quando identifica o problema, a família relata que os filhos gastam horas colocando coisas em ordem.
De acordo com especialistas, pessoas com TOC não conseguem se controlar, pois “os pensamentos invadem a mente da pessoa de tal forma que ela não consegue se livrar deles”. Para diminuir o nível de ansiedade, essas pessoas acabam praticando rituais chamados de “compulsões” na psiquiatria.
Algumas informações foram dadas com base em uma matéria publicada pelo Portal R7