A empresa responsável pelo transporte de Kevinn Belo Tome, de 16 anos, se pronunciou sobre o caso e contou detalhes do procedimento de transferência dele de Cachoeiro de Itapemirim para a Grande Vitória. O adolescente morreu no último sábado (30) enquanto aguardava atendimento no Hospital Infantil de Vila Velha (Himaba).
A nota de esclarecimento foi divulgada na noite desta quarta-feira (04), nas redes sociais da Removida, após a repercussão do caso. A empresa presta serviços de remoção de paciente em ambulância tipo UTI Móvel para a Secretaria Estadual de Saúde (Sesa).
Na publicação, a Removida explica que o paciente saiu do Pronto Atendimento Municipal Paulo P. Gomes, em Cachoeiro de Itapemirim, com destino ao pronto-socorro do Himaba e reforçou que não se tratava de uma transferência para um leito de enfermaria.
Na última terça-feira (03), o advogado responsável pela defesa das médicas plantonistas do Himaba, que foram afastadas logo após a morte do adolescente, disse que o requerimento de transferência do pronto atendimento de Cachoeiro para o Hospital Infantil de Vila Velha solicitava uma vaga de enfermaria.
De acordo com a Removida, ao chegar no Himaba, a equipe da ambulância realizou o procedimento padrão de remoção, retirou o paciente da ambulância e o levou ao setor de destino, sendo recepcionados por profissionais da emergência do Hospital.
“A equipe de remoção foi informada que o atendimento ao paciente Kevinn não seria possível, obrigando-os a retornarem com o paciente para ambulância. De acordo com as informações repassadas no momento da solicitação da remoção, o paciente possuía autorização pelo Setor de Regulação de Vagas do SUS para ser transferido ao pronto-socorro do Himaba, setor apto para atender aos pacientes em urgência e emergência”, complementou a empresa.
Segundo a empresa, a equipe de remoção permaneceu por cerca de quatro horas no hospital, esperando que o paciente fosse atendido e recepcionado pela equipe do Himaba.
“Embora a UTI Móvel seja o tipo de remoção médica com o maior nível de recursos e equipamentos, não se compara aos recursos e equipe multidisciplinar da UTI Hospitalar”, destacou a empresa.
O jornalismo da Rede Vitória teve acesso à ficha de atendimento da empresa responsável pelo transporte de Kevinn Belo Tome. O documento aponta que o adolescente apresentava um quadro “gravíssimo” ao deixar o pronto atendimento de Cachoeiro de Itapemirim, onde ele estava internado até então.
Advogado diz que médicas se empenharam para conseguir vaga para adolescente
As médicas que estavam no plantão do Hospital Infantil de Vila Velha foram afastadas do cargo. O advogado de defesa, Jovacy Peter Filho, destacou que as médicas, que não tiveram os nomes divulgados, são intensivistas e, no dia do ocorrido, estavam responsáveis pelo setor de emergência.
O advogado negou a omissão de socorro e disse que as profissionais se empenharam na tentativa de conseguir uma vaga para Kevinn no próprio Himaba ou em outro hospital, por meio da Central de Regulação de Vagas.
Segundo Jovacy, o requerimento de transferência do pronto atendimento de Cachoeiro para o Hospital Infantil de Vila Velha solicitava uma vaga de enfermaria para Kevinn. No entanto, o garoto chegou ao Himaba já intubado, o que indicava que ele deveria ser levado para o setor de emergência.
“O fato dele estar intubado já altera a classificação de risco dele. E essa é uma pergunta que precisa ser respondida pela Secretaria de Saúde: em qual momento foi alterada a categoria desse paciente, de um paciente de baixo risco para um de maior gravidade, portanto com maior risco para a saúde”, questionou.
“Será que a remoção de um paciente com a gravidade em que ele estava era recomendável? E se era recomendável, por qual motivo e por quem foi determinado? E se não era recomendável, por que ainda assim aconteceu?”, continuou o advogado.
Sesa apontou omissão e negligência por parte das médicas
O secretário Estadual de Saúde, Nésio Fernandes, afirmou na última segunda-feira (02) que as médicas do pronto-socorro do Hospital Infantil de Vila Velha foram negligentes ao se recusarem a atender o adolescente.
“Houve uma omissão de socorro, uma negligência grave, uma falta grave. Não houve falha da administração. Houve, sim, uma falha grave das profissionais assistentes em não acolher o paciente”, afirmou o secretário.
De acordo com Nésio, a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Himaba tinha condições de acolher o jovem, se o paciente tivesse sido atendido pelo Pronto Atendimento no momento em que chegou na unidade.
“Os fatos e as responsabilidades estão muito bem delimitadas no âmbito das responsabilidades das profissionais no pronto-socorro. O conjunto hospitalar se mobilizou para atender o paciente e todos os recursos disponíveis que estavam garantidos ao paciente estavam colocados no hospital”, disse.
Nésio afirmou que no trajeto entre Cachoeiro de Itapemirim e o hospital, em Vila Velha, o adolescente recebeu o atendimento correto. Segundo ele, o hospital referência para o tratamento seria o Himaba.
Entidades médicas do ES repudiam postura da Sesa
A Associação Médica do Espírito Santo (Ames) divulgou uma nota, na segunda-feira (02), repudiando a postura da Sesa, “por realizar pré-julgamento dos médicos envolvidos no caso”.
De acordo com a Ames, “o afastamento sumário sem processo administrativo disciplinar para apuração dos fatos, precocemente feita pela Sesa, denota uma tentativa de retirar de si qualquer responsabilidade sobre o caso”.
“Todos os fatos precisam ser entendidos e devidamente esclarecidos para aí, então, se apontar culpados e se dar respostas”, frisou o presidente da Ames, Leonardo Lessa.
O Sindicato dos Médicos do Espírito Santo (Simes) também repudiou as afirmações da Sesa, apontou problema na saúde pública capixaba e cobrou esclarecimentos.
“A gente quer apurar os fatos e saber quem são os verdadeiros responsáveis, não um julgamento prévio dessas colegas médicas. E uma coisa que a gente destaca: de norte a sul do Estado, a dificuldade para transferir um paciente grave para uma estrutura maior e com mais equipamentos. A espera é longa, é demorada”, afirmou o presidente do Simes, Otto Baptista.
Amigos e familiares cobram justiça
Após a morte de Kevinn, os amigos e familiares do jovem cobram por justiça e melhores condições no atendimento das unidades de saúde do Espírito Santo.
Um grupo organiza um ato em homenagem ao sétimo dia da morte do adolescente. O protesto por justiça está previsto para acontecer na tarde do próximo sábado (07), na Praça Getúlio Vargas, em Cachoeiro de Itapemirim.
Veja o posicionamento da Removida na íntegra:
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