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Nova geração: escolas mudam a forma de ensinar e aprender

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Nova geração: escolas mudam a forma de ensinar e aprender

Instituições têm inovado e estimulado estudantes a construírem o seu próprio conhecimento

Patrícia Meireles da Silva

Redação Folha Vitória
Foto: Divulgação/Foto: Pixabay
O formato de sala de aula tradicional, com cadeiras enfileiradas, está acabando. 

Você é do tempo que as aulas aconteciam dentro de uma sala, com professores em pé, diante de uma lousa e alunos enfileirados? Se a resposta é sim, você faz parte do passado! As metodologias de ensino tradicionais perderam espaço. Hoje tudo é feito para envolver o aluno. Um novo jeito de ensinar e aprender.

Tanto no Brasil, quanto no Espírito Santo, escolas e centros universitários estão apostando nas chamadas metodologias ativas. Uma série de técnicas que buscam fazer o aluno colocar a mão na massa e construir o próprio conhecimento, de forma dinâmica e personalizada, tendo o professor não mais como a fonte do conteúdo, mas como mediador do processo.

Os métodos ativos transformam as escolas em um ambiente de interação, onde os alunos se sentem mais à vontade para dizer o que pensam, procurando a melhor forma de resolver os desafios. Isso não deixa que o estudante fique parado e o faz se sentir mais motivado a aprender. Na sala de aula, as mesas são transformadas em pequenas ilhas, onde os alunos ficam cara a cara com os colegas e aprendem a trabalhar em equipe. 

Um exemplo de como isso funciona são as aulas do Colégio América, em Vitória. “Os alunos se organizam em pequenos grupos e recebem desafios, problemas para solucionar. Cada componente tem uma função dentro da equipe. Ao resolver esse desafio eles vão entender, aplicar e consolidar o aprendizado com uma vivência prática”, ressalta o diretor da instituição, Juliano Silva Campana, que também é professor universitário e atua como consultor na área educacional há 20 anos. 

Foto: arquivo/Colégio América
A divisão dos alunos em grupos estimula o trabalho em equipe e a solução de desafios. 

Campana pontua também que essa abordagem, chamada por ele de colaborativa, permite que cada aluno trabalhe suas necessidades individuais e, para que isso seja eficaz, a instituição limita um número de 20 alunos por turma. “ Em cada grupo podemos adotar diferentes estratégias, para que cada um alcance seus objetivos. Desenvolver habilidades e competências pessoais é o principal ganho da metodologia ativa”, afirmou.  

Foto: Foto: Arquivo/ Lápis de Cor
Desde pequenos os alunos já colocam o conhecimento em prática. 

O método ativo de ensino pode ser usado em todas as idades, inclusive nos primeiros anos de vida. Há 35 anos atuando na ´área da educação, a pedagoga e diretora da Escola Lápis de Cor, Iza Rocha, afirma que o respeito pela individualidade dos pequenos faz toda a diferença no aprendizado nessa fase inicial da vida. 

“Partindo do princípio que você respeita o tempo da criança, não tenta apressar o processo de aprendizagem, ela estará mais preparada para as etapas seguintes”, declarou. No caso particular da instituição, além das atividades, jogos e pesquisas, a escola aposta no contato direto com a natureza, para desenvolver os alunos. “Temos horta, jardim, animais. A criança quando tem contato e respeita a natureza, consegue socializar melhor”, concluiu a diretora, que é especialista em Psicologia do Desenvolvimento Infantil.

Quem conhece bem os benefícios dessa mudança é a nutricionista Juliana Marchetti Chevrand , 35 anos, mãe do Miguel, de três anos. Ela conta que colocou o filho na escola por uma recomendação do neuropediatra, por ele ter dificuldades na fala e na alimentação. Após começar a frequentar a sala de aula na escola Lápis de Cor, a mudança de Miguel foi visível. "A fala foi desenvolvendo super bem, por causa das atividades de interação. Na alimentação foi feito um trabalho maravilhoso e ele até aprendeu a fazer alguns pratos na aula de culinária", afirma a mãe.

Foto: Divulgação/Escola Lápis de Cor
Crianças aprendem a importância da alimentação plantando na pr´ópria horta da escola. 

Juliana ressalta como o estímulo à autonomia, promovido pelo protagonismo dos alunos, mudou a rotina dela com o filho. "Antes ele dependia de mim para tudo, agora ele faz tudo sozinho, come, calça o tênis, até escolhe a roupa que quer usar para sair. Acho que ele sendo educado dessa forma, vai desenvolver mais a personalidade e os dons dele". 

A educação superior também mudou. Em muitas instituições, os alunos são desafiados com situações reais de cada área de formação e assim se prepararam de forma mais adequada para o mercado. A salas passam a ser organizadas para serem parecidas com o ambiente de trabalho que os estudantes irão encontrar, também usando as atividades em grupo. 

Foto: Divulgação/Católica De Vitória
Estudantes encaram os desafios reais da profissão. 

No Centro Universitário Católica de Vitória, essas mudanças trouxeram inovação e transformaram a forma de preparar os futuros profissionais. “Nós usamos mais de 40 metodologias, de acordo com os cursos e com as necessidades. Não temos disciplinas (individuais), nem provas bimestrais. Os estudantes são avaliados todos os dias e trabalham com os desafios reais da sociedade. A universidade inteira é um laboratório”, afirmou Cledson Rodrigues, reitor do centro universitário e MBA em Gestão de Instituições Educacionais. 

A estudante do segundo período de psicologia da Católica de Vitória, Carin Queiroz Klueger, de 42 anos, faz um comparativo exato do antes e do depois dessa mudança do ensino. Isso porque ela já foi aluna do Centro Universitário há 15 anos, em outro curso, quando ainda era usado o método tradicional, e agora está estudando com as novas metodologias.

Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal
 Carin comemora as mudanças no ensino

"A mudança foi extraordinária! Você entra na sala e já se sente no seu escritório (risos), ficamos em 'ilhas', podemos olhar de frente para os colegas e discutir assuntos, levamos café para tomar durante a aula, nos sentimos muito à vontade, e o professor é um parceiro que está ali para nos auxiliar", contou a estudante.


A origem

Apesar de parecer uma nova técnica, a professora Cláudia Maria Mendes Gontijo, do Departamento de Linguagens, Cultura e Educação da Ufes, garante que as metodologias ativas são uma discussão antiga na área educacional. Surgiram no século XX e começaram a aparecer no Brasil na década de 50, mas nos últimos anos que ganharam mais espaço nas instituições de ensino.

“É possível formar pessoas mais críticas, com a capacidade de se posicionar na sociedade. Se antes buscava-se adaptar as pessoas à realidade, o agora visa formar pessoas construtivas”, declarou Cláudia Gontijo, professora da Ufes.

Confira no vídeo como o método ativo beneficia o aprendizado, segundo o reitor do Centro Universitário Católica:

O professor como mediador

Essa mudança técnica e de pensamento, exige também uma formação diferenciada. “Os professores estão sendo formados em Gestão de Aprendizagens Ativas. O professor passa a ser um gestor em sala de aula e precisa aprender junto com os alunos” pontuou o reitor Cledson Rodrigues.

Quanto à capacitação desses educadores, Cláudia Gontijo, da Ufes, reflete que é preciso uma formação sólida e muita troca de experiências entre os professores.. “Aqui no Espírito Santo temos várias experiências de formação continuada com professores, promovendo situações de trocas de conhecimento. As formações ajudam os professores a refletir sempre”, destacou

Ferramentas das metodologias ativas

Classe invertida:  Aprender o conteúdo na escola e depois fazer a famosa tarefa de casa? Não mais! Na  sala de aula invertida, o aluno estuda o conteúdo em casa e o coloca em prática na escola, tendo auxílio direto do professor nos questionamento sobre o tema. 

Foto: Divulgação/ Escola América
Escolas estimulam a autonomia e o desenvolvimento do estudantes. 

Gamificação: Uma ótima forma de estimular os alunos, é a utilização de jogos na sala de aula. A lógica dos games ajuda a simplificar os assuntos mais complexos e motiva os estudantes. Um bom exemplo, é a utilização pelos professores de plataformas onde os alunos respondem perguntas em tempo cronometrado e, posteriormente, é formado um ranking, com quem respondeu em menos tempo.

Elaboração de projetos:  A divisão de alunos em equipe, para solucionar desafios e problemas, com ou sem ajuda de tecnologia. Desenvolve nos estudantes o espírito de liderança, a solução de questionamentos e problemas, autonomia e a divisão de tarefas. 

O método ativo nas escolas pelo país

Na prova Brasil de 2017, realizada pelo Ministério da Educação, professores de escolas municipais, estudais e federais, responsáveis pelas turmas de 5º e 9º ano, responderam uma série de questionamentos sobre as práticas pedagógicas. Uma das perguntas feitas foi a seguinte: 

Cerca de 125.215 professores, quase 49% dos que participaram da prova, responderam que realizam atividades em grupo com os alunos, para solucionar problemas, semanalmente. Se pararmos para pensar que a divisão dos alunos em equipes para fazer atividades que estimulam a autonomia é feita todos os dias, nas escolas com a novas metodologias, fica fácil perceber que, essas mesmas atividades ainda são feitas com pouca frequência nas escolas da rede pública, mostrando uma forma de ensinar ainda muito presa à tradicional. 

O diretor da Colégio América, Juliano Silva Campana, faz uma reflexão sobre aplicação das metodologias ativas na educação do Brasil, como um todo. Ele explica que são raras as escolas, incluindo as públicas, que possuem estrutura adequada para esse ensino, além da resistência por parte das famílias, que estão acostumadas ao método tradicional. Confira!

Juliano Silva Campana - Desafios dos métodos ativos nas escolas do Brasil