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Ufes vai se colocar contra projeto que fragmenta universidade e cria uma nova Federal em Alegre

Instituição reagiu a projeto de lei do deputado Evair de Melo (PP) que funda uma universidade federal a partir da estrutura do campus de Alegre

Foto: Divulgação/Ufes

Em coletiva à imprensa na manhã desta terça-feira (19), o reitor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Paulo Vargas, declarou que a instituição de ensino irá se posicionar junto ao Ministério da Educação (MEC) de forma contrária a criação de uma nova universidade federal no sul do Espírito Santo. 

O projeto de lei, de autoria do deputado federal Evair de Melo (PP), indica que isto seria feito a partir da fragmentação do Centro de Ciências Agrárias e Engenharias (CCAE) e do Centro de Ciências Exatas, Naturais e da Saúde (CCENS), localizados, respectivamente, em Alegre e Jerônimo Monteiro. A nova instituição seria chamada de Universidade Federal do Vale do Itapemirim (UFVI).

O assunto também ganhou interesse quando o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) num vídeo postado na rede social do ex-senador Magno Malta, citou que o campus de Alegre seria um dos chamados “puxadinhos” que seriam desmembrados e transformados em universidades. 

“Além do encaminhamento ao MEC, vamos também contatar atores locais como o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande; o presidente da Assembleia Legislativa, Erik Musso (Republicanos) e representantes da sociedade civil. Não somos contra a criação de novas universidades desde que elas possam ampliar a rede de universidades do país. 

A proposta do projeto de lei recebeu críticas. “A maneira como é apresentada não parece ser um projeto de desenvolvimento tecnicamente responsável e sério. O que tem sido veiculado é que é simples criar uma universidade com baixo custo de investimento já que há uma estrutura em Alegre”, aponta.

O reitor analisa que falta clareza sobre como seria instalada essa nova federal e não se leva em conta os problemas de estrutura já enfrentados pelos dois centros universitários. “Uma nova universidade não se cria sem investimentos substanciais adequadas para o seu funcionamento. Os dois centros em Alegre possuem dificuldades e carências em sua infraestrutura. O próprio campus de Alegre já está esgotado em termos de expansão física. 

Não dá para se pensar em fazer nova universidade sem fazer investimento e sem um projeto que se preocupe com o desenvolvimento regional. Pensar numa nova universidade é pensar em como ela vai se colocar e atuar estrategicamente na região onde será instalada”, criticou.

“Ufes ficará menor”, alerta reitor

De acordo com o reitor Paulo Vargas, o orçamento da universidade em 2019 foi de R$ 135 milhões, sendo que R$ 23 milhões, ou 17, 6%, foram destinados ao campus de Alegre. Ele não considerou dados do ano passado já que em 2020 veio a pandemia do coronavírus, quando o corte no orçamento foi maior.

Vargas também apontou outros dados numéricos. Há cerca de 20 mil estudantes de graduação em toda a Ufes, sendo 3,7 mil no campus de Alegre. São 400 em cursos de pós-graduação, dos quais 8,5% estudam na região, que conta ainda com 240 dos 1,8 mil docentes da instituição de ensino.

Na análise do reitor, retirar o campus de Alegre não terá efeito positivo para o quadro do ensino superior brasileiro. “A Ufes fica menor. Além disso, fragmentar de 17 a 20% do tamanho da Ufes é muito pouco para constituir uma nova universidade. O risco é formalizar uma universidade muito reduzida, que não conseguiria avançar no desenvolvimento local e que ficará com dificuldades inclusive de disputar recursos devido ao porte e desempenho ainda pequeno do que ainda vai se configurar”, apontou.

Também participaram da coletiva a diretora do CCAE, Louisiane Carvalho Nunes; e a diretora do CCENS, Taís Cristina Soares. As gestoras informaram que os conselhos dos centros departamentais, após se reunirem, se decidiram por não apoiar essa fragmentação. “Não é simplesmente dizer que Alegre já está pronta, tem estrutura física, recursos humanos e agora podemos simplesmente cortar um braço da Ufes e transformar em uma nova universidade. Não podemos fragmentar a única universidade pública do Estado sem que haja o planejamento necessário”, reforça Louisiane. 

Já a diretora do CCENS aponta que a decisão de fragmentação deve respeitar as decisões da comunidade interessada a partir de discussões.  Ela recordou que os centros chegaram a ter crescimento em governos anteriores, como o que aconteceu no projeto de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), implantado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 

Outro lado

Por meio de nota, o Ministério da Educação (MEC) informou que a proposta de criação de universidades federais a partir de seus desmembramentos se trata ainda de projeto de lei. 

O ministério afirmou que a expansão da rede de ensino superior, a democratização de seu acesso e a promoção de inclusão social estão entre os objetivos centrais do Governo Federal. As estratégias para se chegar a essa ampliação são a “interiorização da rede federal de educação superior, uniformizando a oferta pelo país”.