A atitude de um médico pediatra do Hospital Geral de Linhares (HGL), no norte do Estado, que mexia no celular durante um atendimento de emergência, gerou muita polêmica e tem dividido profissionais da área no Espírito Santo. Enquanto uns condenam veementemente a prática, outros acreditam que o telefone pode ser atendido em uma situação de urgência, desde que o médico peça licença ao paciente antes de interromper o atendimento.
O deputado estadual Hércules da Silveira (PMDB), que é médico e presidente da Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, não vê problemas no fato de o profissional atender a uma ligação no meio de uma consulta. Ele ressalta, no entanto, que isso só pode ocorrer no caso de se tratar de uma ligação importante e que não atrapalhe no atendimento.
“Eu não tenho o hábito de atender a ligações durante minhas consultas. Mas eu acho que o médico pode deixar o celular ligado e atender a chamadas, por exemplo, do hospital, que pode ser alguma urgência. Nesse caso, ele deve pedir licença ao paciente, explicar que se trata de uma ligação importante e atender”, ressaltou.
Doutor Hércules disse ainda que é contra a posição do HGL em proibir os médicos de utilizarem celular durante as consultas. “Acho que o hospital está arbitrando. Ele não tem esse direito. Se o médico estiver sendo chamado e for algo urgente, ele tem o direito de atender à ligação. É claro que ele tem que ter o bom senso de avaliar se essa interrupção vai ou não atrapalhar o trabalho dele”, destacou.
Já o presidente do Sindicato dos Médicos do Espírito Santo, Otto Batista, é radicalmente contra a prática. Para ele, o médico até pode manter o celular ligado durante a consulta. Porém ele deve estar no silencioso ou vibra call e, se for o caso, a ligação deve ser retornada entre uma consulta e outra.
“Quando o médico perceber a chamada durante a consulta, ele pode ativar a mensagem eletrônica de que está ocupado e que retornará mais tarde. Depois da consulta, ele liga de volta. Mas atender o telefone no meio da consulta não tem cabimento. Nem por parte do médico nem do paciente. É importante que haja uma relação de respeito entre as partes”, destacou.
Ao contrário do pensamento de Doutor Hércules, Otto Batista acredita que os hospitais devem estabelecer regras e condutas de seus profissionais no que se refere ao seu comportamento durante o atendimento médico. “Acho que esses procedimentos devem ser estipulados pelos hospitais, que precisam criar maneiras que padronizar o atendimento”, salientou.
Polêmica
A atitude do médico do HGL em mandar mensagens de texto via celular durante uma consulta gerou polêmica após ter sido filmada pela mãe do menino de 9 anos que estava sendo atendido. O vídeo ganhou as redes sociais e teve mais de 1,2 mil compartilhamentos até a última terça-feira (05).
A criança deu entrada na unidade de saúde apresentando febre alta, fortes dores e uma vermelhidão no braço. O médico, que desde o início da consulta estava concentrado no telefone celular, mediu a temperatura do menino, colocou a mão em seu braço e voltou a utilizar o aparelho, enquanto o menino esperava em pé por atendimento.
“No início, achei que ele estava consultando outro profissional em busca de um diagnóstico”, contou a mãe, Kelly Ferreira da Silva, que, ao perceber que se tratava apenas de descaso por parte do profissional, começou a gravar seu comportamento.
Após a consulta, que durou cerca de meia hora, o médico receitou um antibiótico e, de acordo com a mãe, liberou os dois sem ao menos conferir o peso da criança.
A Secretaria Municipal de Saúde, responsável pela gestão do hospital, informou por nota que tomou as medidas administrativas cabíveis e está apurando o caso. De acordo com o secretário de Saúde, José Roberto Macedo Fontes, o uso de aparelho celular não será permitido durante os procedimentos médicos e ambulatoriais no Hospital Geral e em toda a rede municipal de saúde.