Sempre às sextas-feiras, no horário do pôr-do-sol, um grupo se reúne na escadaria São Diogo, no Centro de Vitória, para entoar cânticos e louvores. Assim que o sol se põe, três toques de uma trombeta, o Shofar, anunciam a chegada do Shabat, dia sagrado para os Judeus. De acordo com a doutrina bíblica, esse é o dia em Deus descansou após a criação do Universo. Por isso, para os Judeus, o sétimo dia da semana deve ser guardado e dedicado ao Criador.
É o que explica o médico Leonardo Reuter Motta Gama, um dos representantes da comunidade Judaica que vive em Vitória. De acordo com ele, é difícil precisar a quantidade de Judeus que vivem na cidade, já que a maioria desconhece a origem da família. “A estimativa é de que 70% da população brasileira tenha essa ascendência, mas a maioria desconhece”.
Segundo Leonardo, isso ocorreu por conta da imigração europeia, principalmente portuguesa e espanhola, nos séculos XVII e XVIII. “Muitas famílias judias migraram para as Américas fugindo da inquisição romana. Sobrenomes como Pereira, Motta, Silva, Machado, Oliveira, Castro, entre tantos outros, têm origem entre os Judeus”, explica.
O médico conta que ele próprio desconhecia a origem judaica da família. “Nossa família já professava a fé judaica, mas sem conhecer as raízes familiares. Até que fizemos uma ampla pesquisa e conseguimos refazer todo o histórico familiar, confirmando as origens da família”, contou.
Na opinião de Leonardo, a capital do Estado é um local bom para se viver, mas que falta uma maior mobilização da sociedade civil para que a qualidade de vida seja ainda melhor. “Vitória tem um povo trabalhador e muito receptivo. É uma das cidades mais bonitas que conheço. Já morei fora e não troco Vitória por nada. No entanto, sinto que falta mais participação da população em ações que ajudem no desenvolvimento social e cultural da cidade”, comentou.
Associação Alef Bet
Partindo do princípio da justiça social (Tzedaká) presente no livro sagrado do Judaísmo, a Torah, a Associação Alef Bet reúne voluntários para a realização de trabalhos sociais, sobretudo nas comunidades adjacentes a região do centro de Vitória.
De acordo com Leonardo, que também é presidente da Associação Alef Bet, o grupo possui um ano e meio e cerca de 70 membros. “Entendemos que, enquanto sociedade, não podemos simplesmente cruzar os braços. Precisamos fazer nossa parte para uma sociedade mais justa e igualitária. É esse pensamento que permeia o trabalho da associação”, comenta.
Segundo Leonardo, um dos projetos é realizado em parceria com a prefeitura de Vitória e oferece aulas de música para aproximadamente 200 crianças do bairro do Centro. A associação também realizada visita a famílias carentes dos bairros próximos para auxiliar em diversos tipos de necessidades, dentre outras, a distribuição de cestas básicas.
Sinagoga
Além da celebração que acontece na Escadaria São Diogo, os membros da comunidade Judaica contam com uma Sinagoga, localizada também no Centro da Cidade. O antigo casarão, onde já funcionou a pro-matre foi totalmente restaurado pelos membros da comunidade, preservando as características arquitetônicas do local.
A Casa de Oração também realiza trabalho social voltado para a distribuição de refeições para acompanhantes de pacientes que estão em tratamento na Grande Vitória.
“Nós chegamos a servir refeições semanais para os acompanhantes dos pacientes de alguns hospitais da rede pública de saúde, pois os mesmos não eram contemplados nessas instituições. No momento, a distribuição está suspensa por conta da reforma da cozinha, mas retomaremos esse trabalho em breve”, conta Leonardo.
Reportagem: Susana Kohler