Sobrevivência pela natureza

Suzana Padua: professora que se dedica à conservação do ameaçado mico-leão-preto

A trajetória dela inspira a conservação da Mata Atlântica e a proteção do mico-leão-preto, símbolo de resistência e transformação ambiental

Esta é mais uma matéria da série Dando Voz à Natureza, sobre pesquisadores que moldam suas vidas dando voz à natureza por meio de seus esforços de conservação! A professora Suzana Padua é uma dessas pesquisadoras incríveis.

Dessa vez, compartilho uma história de respeito, inspiração e transformação. Conheça a mulher por trás de uma das maiores iniciativas de conservação da Mata Atlântica e como essa vivência transformou não apenas o meu olhar, mas também minha missão.

E isso tudo, com uma inspiração poética, um pequenino primata que todos achavam que já estava extinto.

O mico-leão-preto no Parque Estadual do Morro do Diabo, em São Paulo. E na foto da direita, a professora Suzana Padua orientando seus alunos de mestrado. | Fotos: Leonardo Merçon

O olhar que inspirou minha jornada

Entre todas as pessoas que marcaram meu caminho como fotógrafo e ambientalista, a professora Suzana Padua (e seu companheiro Claudio Padua) ocuparam um lugar especial. 

A professora Suzana Padua e o Professor Claudio Pádua em ação. | Fotos: Claudio Rossi e Equipe Ipê.

Tive o privilégio de tê-la como minha orientadora de mestrado no Instituto IPÊ, onde estudei na ESCAS. Mas, antes disso, já era um admirador do seu trabalho. Ao conhecê-la pessoalmente, tive a certeza: ali estava alguém que realmente dá voz à natureza.

Turma de mestrado do qual fiz parte, promovida pelo Instituto IPÊ/ESCAS, junto com a professora Suzana Padua. | Fotos: Leonardo Merçon.

A vida salva por um tucano

Suzana me contou uma história que jamais esqueci. Em uma de suas viagens pelo Pantanal, após encerrar um curso de educação ambiental para policiais florestais brasileiros e de outros países da América Latina, ela estava prestes a embarcar em um pequeno avião quando um tucano fez cocô na sua blusa.

Ela foi lavá-la para poder embarcar, rindo muito porque sempre soube que um cocozinho de qualquer pássaro traria boa sorte. Imaginem de um tucano! Mal sabia ela que seria sua salvação.

Ao decolar, no entanto, o piloto teve um mal súbito e o avião chocou-se contra árvores (antes de levantar voo) no fim da pista. Suzana sobreviveu, ainda que machucada. Mas, se não tivesse atrasado por causa do tucano, estariam no ar no momento do aneurisma que acometeu o piloto. Sim, ela foi salva por um tucano. Uma dessas histórias que a natureza parece escrever com mãos invisíveis.

A coragem de mudar tudo nos anos 80, virou uma das histórias mais impactantes da conservação ambiental no Brasil.

Claudio iniciou pesquisas com o mico-leão-preto, então redescoberto no Parque Estadual do Morro do Diabo, e Suzana logo percebeu que só a ciência não bastava. Era preciso envolver as pessoas.

Começou a falar sobre o mico, sobre a floresta, sobre o futuro. Falava para quem quisesse ouvir: em escolas, churrascarias, clubes, reuniões. Foi assim que nasceu o programa de educação ambiental do IPÊ, uma das instituições ambientais mais respeitadas do Brasil.

Parque Estadual do Morro do Diabo, refúgio do mico-leão-preto. | Foto: Leonardo Merçon/Instituto Últimos Refúgios

Uma experiência que moldou minha visão

Em minha visita ao Pontal do Paranapanema, Teodoro Sampaio, no interior de São Paulo, pude testemunhar de perto os frutos dessa jornada.

A região, marcada no passado por desmatamento e conflitos fundiários, hoje abriga algo raro: corredores ecológicos plantados por mãos humanas, com o envolvimento direto da comunidade local. 

Corredores ecológicos criados com o envolvimento da comunidade local. | Foto: Leonardo Merçon/Instituto Últimos Refúgios e Andréa Peçanha.

Vi viveiros de mudas nativas, propriedades que antes criavam gado agora também replantando florestas. Empresas e famílias inteiras aprendendo e adaptando tecnologias, suas crenças, seus caminhos na direção de um desenvolvimento sustentável.

Viveiros de mudas nativas impulsionam a recuperação da Mata Atlântica. | Foto: Leonardo Merçon/Instituto Últimos Refúgios

Tudo isso é impressionante para quem tem a visão de para onde nossa sociedade deveria seguir, caso queiramos continuar existindo. 

Porém, não foi isso que mais me tocou. Ali, tive a chance de registrar algo que me emocionou profundamente: animais como antas, veados, macacos e aves coloridas permitindo minha aproximação sem medo. 

Animais como antas, veados e macacos se aproximam em ambiente restaurado. | Foto: Leonardo Merçon | Instituto Últimos Refúgios

Como fotógrafo de natureza, sei o quanto isso é incomum. Em geral, somos vistos por eles como ameaça. Mas naquela região, parece que a relação entre humanos e fauna encontrou uma trégua. Fui “aceito”. E isso, para mim, é um dos maiores sinais de que algo tem dado certo por lá.

Sei que a situação ainda está longe de ser perfeita. Ainda vi muitas coisas que precisam ser melhoradas. Mas senti que ali havia algo… um bom caminho para me inspirar.

O que vi nessa minha visita ao Pontal do Paranapanema hoje pauta também minhas próprias iniciativas de conservação no Instituto Últimos Refúgios, OSC da qual sou fundador e diretor. 

O poder da educação ambiental

Durante minha jornada, encontrei pessoas transformadas pela educação. Que quando crianças, conheceram o mico-leão-preto, por meio do Instituto IPÊ, e que hoje entendem a importância das florestas, e muitas delas, atuantes na causa ambiental. 

Isso só foi possível porque alguém, há mais de 30 anos, decidiu que valia a pena tentar. A professora Suzana escreveu projetos e conseguiu recursos para adquirir um ônibus para levar alunos ao parque, equipamentos como uma televisão para passar vídeos educativos. 

E quando tudo parecia difícil, um pequeno milagre acontecia. Como aquele menino que escreveu no caderno perdido que, se fosse um bicho, queria ser um mico-leão-preto para morar no parque e ser cuidado por Suzana e Gracinha (uma das pessoas da comunidade, que se juntou à causa ambiental).

Pessoas impactadas pela educação ambiental do IPÊ, atuando pela conservação
Ação de sensibilização há mais de 2 décadas. | Foto: Cláudio Padua.
O mico que virou símbolo de resistência

E o motivo disso tudo? Um pequeno primata. O mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus) é uma espécie de primata endêmica do estado de São Paulo. Já foi considerado extinto por mais de 60 anos. Hoje, sua principal população está no Parque Estadual do Morro do Diabo. 

Close do mico-leão-preto, símbolo da conservação na Mata Atlântica
O mico-leão-preto, espécie emblemática da Mata Atlântica. | Foto: Leonardo Merçon/Instituto Últimos Refúgios

São pequenos, medem cerca de 30 cm, têm uma pelagem negra com reflexos dourados e são extremamente sociáveis entre eles. Vivem em grupos familiares, se alimentam de frutas, insetos e pequenos vertebrados.

Graças a esforços como os do IPÊ, essa espécie saiu da categoria “criticamente em perigo” e agora está classificada como “em perigo”. Ainda há muito a ser feito, mas ver o mico-leão-preto se tornar símbolo de uma região e de São Paulo, é prova de que a mudança é possível.

Imagens que inspiram mudanças

No meu projeto de mestrado, intitulado “Imagens que Mudam o Mundo: Inspirando Pessoas para a Conservação da Natureza”, mostro como as imagens podem ser usadas como ferramentas de sensibilização, educação e transformação. Quem vê, sente. Quem sente, se importa. E quem se importa, age.

As imagens são janelas para o que podemos ser. E aqueles que escolhem dar voz à natureza, seja com palavras, fotos ou ações, estão ajudando a escrever uma nova história para o nosso planeta.

LEIA A DISSERTAÇÃO AQUI: IMAGENS QUE MUDAM O MUNDO!

Toda mudança só é possível quando coletiva

Apesar de esta ser uma homenagem à professora Suzana Padua, faço questão de reconhecer todos os que participaram dessa história.

O professor Claudio Padua, a professora Cristiana, o professor Alexandre, a Rosângela e tantos outros do Instituto IPÊ. Também os moradores, os gestores das Unidades de Conservação e os alunos que hoje seguem levando adiante esse legado.

Porque toda mudança só é possível quando coletiva.

Inspiração que floresce como um ipê

A professora Suzana Padua ajudou a transformar vidas, comunidades e paisagens. Com sua ECONEGOCIAÇÃO, metodologia de escuta e planejamento junto às comunidades, criou pontes entre ciência, educação e conservação. 

E, a equipe do IPÊ já plantou mais de 7 milhões de árvores na Mata Atlântica. Hoje, o mico-leão-preto estampa paredes de restaurantes, escolas e hotéis em Teodoro Sampaio. 

Crianças o reconhecem e sabem por que ele importa. A floresta do Pontal está voltando a ser verde. Até a NASA reconheceu.

Essas são as sementes que florescem quando alguém decide dar voz à natureza.

Minha vida é repleta de pessoas fantásticas, em especial por eu apoiar, acompanhar ou participar de muitos projetos de conservação.

Assim como a professora Suzana, pretendo apresentar muitos outros amigos inspiradores aqui na coluna Natureza & Cultura, nessa nova série Dando Voz à Natureza, que pretendo publicar por aqui, intercalada com os posts sobre minhas fotos de natureza. Espero que tenham gostado desta história e da novidade. 

*Visite, comente, curta e compartilhe este conteúdo, pois a professora Suzana e seus parceiros e equipe merecem! Envie o link da matéria para seus amigos que vão curtir esta história. Sua interação é fundamental para manter viva a minha chama da conservação e mostrar ao mundo a importância de proteger nossa biodiversidade.

Leonardo Merçon

Fotógrafo de Natureza, Cinegrafista e Produtor Cultural

Fundador e diretor voluntário do Instituto Últimos Refúgios, OSC ambiental/cultural sem fins lucrativos, que atua desde 2011 na divulgação e sensibilização ambiental, estimulando o diálogo entre sociedade, organizações ambientais, instituições privadas e governamentais. Fotógrafo de natureza, documentarista desde 2004, Merçon é focado na proteção da natureza, com Mestrado em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento sustentável pela ESCAS/Instituto IPÊ. Também formado em Design Gráfico pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Estudou fotografia voltada para publicações na Academia de Mídias e Artes, na Alemanha. O colunista acredita e trabalha em atividades de sensibilização ambiental (em especial com crianças) e fomento do turismo relacionado à natureza. Leonardo Merçon também tem dezenas de livros impressos e documentários em vídeo publicados. Realiza trabalhos ajudando a contar histórias por meio de imagens em mídias nacionais e internacionais, como a BBC de Londres e National Geographic Brasil, dentre outras.

Fundador e diretor voluntário do Instituto Últimos Refúgios, OSC ambiental/cultural sem fins lucrativos, que atua desde 2011 na divulgação e sensibilização ambiental, estimulando o diálogo entre sociedade, organizações ambientais, instituições privadas e governamentais. Fotógrafo de natureza, documentarista desde 2004, Merçon é focado na proteção da natureza, com Mestrado em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento sustentável pela ESCAS/Instituto IPÊ. Também formado em Design Gráfico pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Estudou fotografia voltada para publicações na Academia de Mídias e Artes, na Alemanha. O colunista acredita e trabalha em atividades de sensibilização ambiental (em especial com crianças) e fomento do turismo relacionado à natureza. Leonardo Merçon também tem dezenas de livros impressos e documentários em vídeo publicados. Realiza trabalhos ajudando a contar histórias por meio de imagens em mídias nacionais e internacionais, como a BBC de Londres e National Geographic Brasil, dentre outras.