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Quantas cientistas estamos perdendo para a sobrecarga invisível?

Se as mulheres são a maioria na graduação e pós-graduação, por que ainda enfrentam barreiras estruturais na ciência e na academia?

Imagem: Freepik
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*Artigo escrito por Letícia Rosário Cruz, especialista em Pesquisa e Extensão da Faesa Centro Universitário

Se as mulheres são a maioria entre estudantes de graduação e pós-graduação, por que elas ainda enfrentam barreiras estruturais na ciência e na academia? Por que políticas de equidade de gênero ainda são tão necessárias?

Dupla (ou tripla) jornada com trabalho, cuidado doméstico e familiar, sub-representação em cargos de liderança, assédio moral e sexual, ausência de referências femininas, falta de rede de apoio e de estratégias eficazes para garantir a licença-maternidade com dignidade, desconfortos mensais durante o período menstrual e menopausa… Essas são apenas algumas das diversas barreiras que tornam a jornada profissional e acadêmica feminina mais exaustiva.

Letícia Rosário Cruz, especialista em Pesquisa e Extensão da Faesa Centro Universitário

No contexto acadêmico, enfrentamos o paradoxo da avaliação do currículo Lattes: para obter financiamento para projetos, é preciso ter um currículo robusto.

No entanto, para construir um currículo competitivo, é preciso acumular publicações, capítulos de livros e participações em projetos de ensino, pesquisa, extensão, inovação e desenvolvimento tecnológico — resultados que, em sua grande parte, dependem de financiamentos anteriores. Mas como construir um currículo competitivo diante de tantos desafios que consomem o tempo e a energia das mulheres?

Muitas dessas mentes brilhantes têm seu potencial limitado e seus projetos comprometidos, mesmo quando poderiam ser responsáveis por descobertas transformadoras para a humanidade.

A ciência perde quando mulheres são impedidas de desenvolver pesquisas e projetos de impacto social inovadores porque suas trajetórias estão sobrecarregadas por tarefas domésticas, preocupações financeiras e responsabilidades sociais.

Por isso as estratégias e políticas que incentivem a participação das mulheres na pesquisa, extensão, inovação e desenvolvimento tecnológico são tão essenciais.

Criar condições favoráveis para que as mulheres possam dedicar-se à investigação científica e a projetos de extensão universitária sem se preocuparem com a lista de compras, buscar os filhos na escola, pagar as contas, arrumar a casa, tirar a toalha da cama, andar sozinha na rua é um passo fundamental para permitir que elas contribuam com soluções inovadoras.

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A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) destaca que a diversidade em grupos acadêmicos amplia o grupo de cientistas de talento, trazendo novas perspectivas e maior criatividade.

Nesse sentido, programas de incentivo, permanência e fomento à participação de meninas e mulheres na ciência são cruciais. Eles criam oportunidades para que pesquisadoras e extensionistas tenham acesso a financiamento e apoio, reduzindo desigualdades históricas. Além disso, incentivam a participação e fortalecem a representatividade feminina na ciência, um fator determinante para inspirar novas gerações.

Quando meninas veem mulheres ocupando espaços na academia, liderando pesquisas e transformando realidades, sentem-se encorajadas a trilhar caminhos inspiradores.

E assim, pouco a pouco, abrimos espaço, reduzimos a sobrecarga mental e permitimos que nossas mentes brilhantes se dediquem mais a descobertas inovadoras e menos a tarefas e preocupações que podem — e devem — ser compartilhadas e evitadas.