O motorista suspeito de arrastar uma mulher durante uma briga de trânsito no último domingo (12), na Praia de Camburi, na Capital, prestou depoimento na manhã desta sexta-feira (16), na Delegacia de Delitos de Trânsito de Vitória, e disse estar arrependido por ter se envolvido em uma briga de trânsito.
O homem de 31 anos chegou cedo à delegacia. Antes mesmo de prestar depoimento, ele conversou com a equipe da TV Vitória e contou sua versão sobre o que aconteceu no último final de semana.
O rapaz que preferiu não se identificar disse que foi fechado duas vezes e que, depois de piscar o farol, percebeu que três pessoas haviam saído do outro veículo. Ele disse que arrancou com o carro por medo. O suspeito garante que não houve atropelamento e disse que a jovem caiu na hora que ele arrancou com o carro. “Eu estava próximo a Ponte de Camburi quando recebi uma fechada brusca de um carro. Eu tive o reflexo de frear para não acontecer um acidente. Fiquei um pouco exaltado e pisquei o farol alto para eles. Eu fui atrás deles, piscando o farol alto. Quando chegou na altura daquele semáforo da Mata da Praia, eles deram seta, como se fossem entrar no bairro e eu ia seguir reto para Serra. Os sinais estavam fechados e ele entrou na minha frente. Nisso, saíram três pessoas de dentro do carro, o rapaz, a namorada e outra pessoa. Essa terceira pessoa já saiu do carro com o celular, filmando. A mulher saiu do carro com a carteira policial me mostrando, me coagindo, e o namorado dela veio gritando, muito exaltado”, conta.
Alegando estar arrependido por ter se envolvido na briga de trânsito, o rapaz confessou que bebeu e que arrancou com o veículo porque a mulher, que é funcionária pública, disse que estava armada. Ele mostrou uma gravação feita pelo próprio celular da mulher, onde ela diz tem uma arma dentro do carro. Ao arrancar com o veículo, o aparelho dela caiu dentro do carro do homem. “Depois disso tudo, eu vou pensar mil vezes antes de tirar satisfação com alguém, a gente não sabe quem está no outro carro, o que pode acontecer. Me arrependo disso sim. Não me sinto culpado pelo fato de ela ter caído porque não foi culpa minha. Ela se jogou dentro do meu carro, ela se embolou com o namorado e caiu, infelizmente. Eu sinto muito por ela ter caído e se machucado”, disse.
O delegado titular da Delegacia de Delitos de Trânsito, Fabiano Contarato, já está com a gravação feita pelo próprio celular da mulher que ficou ferida. “Todos os motoristas envolvidos confessam e assumem o grau de exaltação e de impaciência, o que vem acarretando, infelizmente, graves problemas. O que a sociedade tem que entender é que às vezes, uma simples discussão do trânsito, que não teria repercussão nenhuma no direito penal, passa a ter. A falta de cordialidade e de paciência, gerou toda essa cena que pode caracterizar crime não só para um lado, mas para ambos os lados”, afirma o delegado.
O motorista foi autuado pelo delegado de plantão por lesão corporal e embriaguez ao volante. No Departamento de Polícia Judiciária (DPJ) da Capital, foi estipulada uma fiança de R$ 1 mil para o motorista, que foi liberado.
Lei mais dura
No prazo de seis meses, os motoristas que forem condenados por participação em rachas estarão sujeitos a penas mais duras, que poderão chegar a dez anos de reclusão, no caso de morte. As mudanças constam da Lei 12.971/2014, sancionada pela presidente da República, Dilma Rousseff, e publicada no Diário Oficial da União da última segunda-feira (12).
A lei altera o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) para elevar a pena pelo crime de participação em racha, atualmente de seis meses a dois anos de detenção, para até três anos. No caso de a prática resultar em lesão corporal grave ou morte, porém, a pena poderá ser de reclusão. A principal diferença entre as duas modalidades é que, na reclusão, o condenado pode começar a cumprir a pena em regime fechado, o que é proibido no caso da detenção.
Brigas no trânsito por motivos torpes
As brigas de trânsito são grandes responsáveis por crimes, que, na maioria das vezes, não envolvem problemas relacionados ao tráfego. Segundo a Polícia Militar de São Paulo, as brigas de trânsito, principalmente por motivos torpes, podem terminar até em morte.
No Espírito Santo, alguns casos terminaram em tragédia. Em janeiro de 2014, Jefferson Teixeira da Silva, de 21 anos, foi assassinado com dois tiros na cabeça após uma briga de trânsito, em Campo Grande, Cariacica. O motivo seria um esbarrão. Ainda em janeiro, um empresário foi preso acusado de matar um portuário de 44 anos com golpes de chave de rodas na cabeça, em um bairro da Serra. O motivo da briga: uma discussão.
Estresse
O estresse do trânsito tem gerado violência e produzido vitimas, algumas fatais, no Espírito Santo. Campanhas do governo tentam fazer as pessoas refletirem mais sobre esse fenômeno social, mas os psicólogos dizem que o ser humano sempre foi violento assim.
Segundo os psicólogos não está aumentando a agressividade. O ser humano sempre foi assim e uma prova disso são as guerras ao longo de toda a história da humanidade. A novidade agora é uma redução daquilo que freia essa violência toda, como os valores morais.
Para o psicólogo Carlos Boechat, nesse pensamento vem a descrença nas instituições, nas leis e na Justiça, com a sensação de impunidade. E ainda o fato de a pessoa não saber lidar com as frustrações. “A frustração tem como uma das características a agressão. Então, uma pessoa que agride com muita facilidade geralmente é fragilizada e muito frustrada”, afirma o psicólogo.
“Conte até dois”
O psicólogo acredita que a educação possa ter influência numa mudança de atitude. A Secretaria de Segurança aposta nisso e investe em campanhas educativas como a “Conte até dois”. A ideia surgiu após uma constatação: 40% dos homicídios no Estado são cometidos devido a reações violentas e emocionais. Desde os crimes passionais até as reações explosivas por causa de uma briga. Os filmes da campanha exibidos na TV mostram situações corriqueiras, como uma fechada no trânsito e uma ideia: é melhor deixar pra lá. Sua paz vale mais do que fazer valer sua vontade, nessas ocasiões.
Confira o flagrante do acidente: