Política

Gestão municipal: saiba quais são os desafios da gestão do lixo nos municípios

Pela lei, é dever da prefeitura recolher o lixo domiciliar, manter as ruas e os córregos limpos, promover a coleta seletiva e destinar o lixo orgânico para um aterro sanitário

Foto: TV Vitória

No início dos anos 90, toneladas de lixo a céu aberto escancaravam um cenário de pobreza e descaso com o meio ambiente, no bairro São Pedro, em Vitória. Há uma década, a política nacional de resíduos sólidos determinava a erradicação dos lixões e o estímulo à reciclagem. As mudanças vieram e as imagens dos lixões a céu aberto ficaram no passado.

Mas ainda hoje a sujeira compõe o retrato de muitas cidades. Pontos viciados de lixo, sacolas jogadas de qualquer jeito para a coleta, à mercê da chuva, e lixo no chão fazem parte do cenário de alguns municípios.

Pela lei, é dever do município recolher o lixo domiciliar, manter as ruas e os córregos limpos, promover a coleta seletiva e destinar o lixo orgânico para um aterro sanitário. No entanto, a população precisa ser parceira nesse processo.

O cuidado com o lixo deve começar antes de entregarmos essa responsabilidade nas mãos da prefeitura. Por exemplo, separar o que é orgânico do reciclável é algo simples, fácil de fazer, e pode começar em casa. Tal atitude mostra consciência e preocupação com os resíduos que todos produzem.

A engenheira civil Cynthia Kucht entendeu isso há anos e, mesmo com pouco apoio da prefeitura, “contagiou” toda a região onde mora com o bom exemplo. “O que nós fazemos é uma campanha de comunicação e educação dos moradores para eles compreenderem e colaborarem em retirar do lixo seco esses resíduos, como as garrafas de vidro, que são perigosas quando chegam até os catadores quebradas, por exemplo”, destacou.

Parte dos materiais devidamente separados vão parar em uma associação de catadores, onde garrafas pet, vidro, papelão e papel passam por nova separação e são vendidos para uma unidade recicladora.

“A gente recebe da prefeitura uma faixa de 70 toneladas. Mas agora, com a pandemia, diminuiu e a gente faz o cata-cata na rua, com nossos caminhões, para poder completar a renda do pessoal. São 20 famílias que dependem disso aqui”, disse a catadora Vera Lúcia Silva dos Santos. 

O processo é importante, mas insuficiente. O Brasil recicla pouco: apenas 3% de todos os resíduos. A maior parte dos resíduos sólidos produzidos na cidade vai parar em aterros sanitários. 

O local funciona como uma espécie de depósito, onde são descartados materiais que não são reaproveitados, chamados rejeitos. Em todo o Espírito Santo, existem cinco aterros desse tipo.

“Esses locais são adequados ambientalmente, com estrutura de engenharia para comportar os resíduos que são gerados dentro das nossas casas, que fazem parte de mais de 95% dos resíduos gerados no município. E esses locais são específicos para receber todo esse resíduo gerado. E, além disso, a gente consegue dar alternativas mais sustentáveis para ele. Hoje é a melhor alternativa, o melhor custo-benefício para o município, diante da realidade que a gente tem, com esse resíduo misturado”, destacou o diretor da empresa Marca Ambiental, Gustavo Lopes Ribeiro.

Pela lei, só deveriam ser encaminhados para os aterros os resíduos que não podem ser reciclados, como papel higiênico e fralda descartável. Entretanto, a destinação inteligente de resíduos orgânicos ainda encontra muitas barreiras.

“Querendo ou não, só o mercado consegue agir com a intenção de tirar essa matéria-prima que hoje segue para o aterro sanitário. Isso pode acontecer por força de lei, por meio de incentivos creditícios, educação ambiental, desburocratização”, frisou o engenheiro químico Renato Siman.

A coleta de lixo e a limpeza urbana estão entre os serviços que saem mais caros para os cofres das prefeituras. Esses gastos incluem os caminhões que coletam o lixo na porta das casas, o salário dos profissionais da limpeza que varrem as ruas, entre outros.

Em 2019, na Grande Vitória, o município da Serra foi o que mais gastou com limpeza urbana: R$ 84.450.573,36. Em seguida, aparece Vitória, com um gasto de R$ 71.365.144,14, Vila Velha, com R$ 51.034.036,83 e Cariacica, com cerca de 18 milhões.

“Questões que são interessantes para que nós consigamos ampliar a cobertura dos serviços sem ampliar também os gastos, por exemplo, é uma transparência maior de como esses serviços são contratados, são fiscalizados, para que a população consiga ver se o serviço que foi contratado para a rua dela — capina, roçada, varrição — está proporcional ao valor que é cobrado inicialmente pela prefeitura”, destacou Renato Siman.

As vias públicas são a extensão do quintal da nossa casa. Cuidar para mantê-las limpas também é o papel de todos nós. Caso contrário, tenha certeza: a conta para o nosso bolso e para o meio ambiente vai ficar ainda mais alta.

Com informações da repórter Luana Damasceno, da TV Vitória/Record TV