Política

'Vejo excesso de críticas de Maia ao Executivo', diz líder do governo na Câmara

Deputado Vitor Hugo afirma que governo agora investe na relação direta com líderes do Centrão para tentar "esvaziar" presidentes do Legislativo

Foto: Divulgação

Homem de confiança do presidente Jair Bolsonaro, o líder do governo na Câmara, Vitor Hugo (PSL-GO), afirmou que o governo passou a investir na relação direta com líderes de partidos do Centrão. A estratégia, que contraria o que o Presidente pregou durante seu primeiro ano de mandato, é uma tentativa de esvaziar os poderes dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), até agora os principais interlocutores do Palácio do Planalto no Legislativo. Para Vitor Hugo, a mudança de rota é reflexo da conduta dos chefes do Legislativo. “Vejo é um excesso de críticas em relação ao Executivo.”

O governo mudou de postura em relação ao Congresso? Vai negociar com líderes de partidos?

Como um todo o Brasil vai sair diferente da crise. Uma das consequências é a necessidade de aproximação, ainda mantendo a independência, mas buscando uma relação mais direta com o Legislativo. Estou sentindo do presidente e ministros uma disposição maior para interagir de maneira direta sem que necessariamente tenha que passar pelos presidentes das duas Casas (Maia e Alcolumbre).

O governo quer ter uma base parlamentar agora?

Eu não sou a pessoa mais adequada para responder isso, mas pode dizer que com certeza o governo quer ter uma relação mais direta com os líderes e os partidos.

E o presidente da Câmara?

O caso do Rodrigo Maia é bem particular. Ele, embora tenha um poder de articulação muito grande dentro da Câmara, tem uma rejeição muito grande fora do Parlamento. Parte da população o vê de modo negativo. As lideranças esperavam que, como no passado, o líder do governo fosse o grande gestor de liberação de emendas para a base. E a decisão do governo de não se aproximar diretamente dos líderes também dificultava e fazia com que eles fossem articular e acessar o governo pelo presidente da Câmara.

Isso deu superpoder a Maia?

Isso certamente contribuiu para o protagonismo que ele teve no ano passado. Embora uma parte da população tem uma visão negativa do Rodrigo.

Aliados do presidente acusam Maia de aproveitar a crise do coronavírus para se promover politicamente. O sr. pensa assim?

Todos os poderes têm responsabilidade sobre a crise. Ele é chefe de uma das casas e é natural que ele queira dar satisfação à população. O que eu vejo, muitas vezes, é um excesso de críticas em relação ao Executivo.

Esta nova postura é reflexo das dificuldades que o Executivo encontrou no primeiro ano?

Foi um primeiro ano difícil, o presidente foi eleito por dois partidos (PSL e PRTB) pequenos e não loteou os ministérios. Acho que eram normais essas faíscas. Agora, com a crise, a necessidade se colocou mais alta. É a chance de aproximar. Isso não quer dizer que eles vão assumir que são governo, mas vão se sentir mais próximos. Quando o governo for apresentar uma medida provisória ou projeto de lei, vai poder discutir antecipadamente a forma e o conteúdo.

Após um ano no cargo, as pessoas o veem como um articulador político?

O discurso que trouxe o presidente ao poder, que colocava em xeque o próprio Parlamento, criava dificuldades. Cheguei lá (na Câmara) como deputado de primeiro mandato, como representante de um presidente que questionou o sistema. É natural que houvesse uma resistência inicial.

Isso aconteceu no caso do auxílio emergencial?

No caso do auxilio emergencial, o Paulo Guedes (ministro da Economia) anunciou e a Câmara começou a discutir. A definição dos critérios para poder o auxilio emergencial tem que ser muito bem feito, porque se não o governo não consegue individualizar quem é o beneficiário. Era coisa que poderiam ser construída juntos, ou aguardar para o governo apresentar uma proposta melhor.

Como o senhor avalia a atuação do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta?

Ele conduziu o início do enfrentamento à pandemia de forma coerente com o que ele acreditava. Como subordinado ao presidente, tem que haver um esforço maior para compatibilizar a forma como ele vê o problema com as diretrizes maiores, que são do presidente, que é quem foi eleito. A solução da crise não será só no âmbito do Ministério da Saúde.

Como vê a postura do presidente, que tem ignorado recomendações do Ministério da Saúde e ido ao encontro de pessoas em aglomerações, a exemplo do que ocorreu no sábado em Goiás?

Não foi o presidente que estimulou as pessoas estarem lá. Não vejo a atitude do presidente como uma afronta a quem defende o isolamento total. Ele vai ver um hospital, as pessoas querem vê-lo e ele vai agradecer o apoio. Tem que ver as atitudes dele como presidente.