De depressão à "episódio maníaco": entenda as sequelas da covid-19

Saúde

De depressão à "episódio maníaco": entenda as sequelas da covid-19

Pesquisas mostraram que 33,62% dos recuperados da covid tiveram um diagnóstico de doença neurológica ou psiquiátrica seis meses depois. O número sobe para 38,73% nos pacientes internados e 46,42% nos que estiveram nas UTIs

Foto: Divulgação

Muito se fala sobre as sequelas neurológicas e psiquiátricas da covid-19. Um estudo publicado este ano usando uma base de dados da TriNetX com os prontuários eletrônicos de 81 milhões de pacientes nos EUA, demonstrou que 33% dos sobreviventes são diagnosticados com doenças deste tipo nos seis meses seguintes.

Se esse estudo, feito com 236.379 pessoas que se curaram da Covid-19 nos EUA, for um representativo do que está ocorrendo no Brasil, por volta de 10 milhões de brasileiros já estariam fadados a serem diagnosticados com doenças neurológicas e psiquiátricas nos próximos meses.

Um dos exemplos de aumento desses diagnósticos subsequentes a covid-19, de acordo com o psiquiatra José Luis Leal de Oliveira, é o episódio maníaco.

“Atendemos em torno de 4 ou 5 casos de episódio maníaco posterior a Covid-19. Nos chamou muito a atenção de um quadro maníaco que surgiu após 15 dias de internação na UTI, quando estava em vias de alta para a enfermaria. Foi elucidado que esse paciente teve dois episódios depressivos anteriores a Covid, decorrentes de estressores significativos, quando o paciente fez uso de medicamentos antidepressivo por curto período de tempo, mas nunca tinha apresentado essa virada maníaca, que pode acontecer com estes tratamentos.”, conta o médico.

O psiquiatra revela também que, além dos pacientes com episódios maníacos pós-Covid, quando comparado com outros quadros infecciosos, foi detectado um aumento significativo de diagnósticos de depressão e transtornos de ansiedade eclodindo depois da infecção. 

“Algumas perspectivas investigadas pelos pesquisadores dizem respeito a invasão do novo coronavirus no sistema nervoso central, não somente nos neurônios, mas, também, nos astrócitos, assim como a excessiva reação inflamatória, e lesões vasculares que provoca”, explica.

Entenda o que é o "episódio maníaco", uma das sequelas da covid-19

Trata-se, segundo José Luis Leal de Oliveira, de um diagnóstico psiquiátrico em que há três níveis de gravidade:

- hipomania;

- mania sem sintomas psicóticos;

- mania com sintomas psicóticos. 

Em todos os casos, nota-se uma série de mudanças comportamentais, que incluem, segundo o psiquiatra:

- humor elevado 

- aumento na quantidade e atividade das expressões físicas como inquietação e  insônia; 

- redução da necessidade de dormir; 

- aumento da atividade, podendo chegar à agitação psicomotora em casos extremos; 

- maior agitação mental, como pensamento acelerado;

- desinibição;

- hipersexualidade;

- irritabilidade;

- impulsividade;

- comportamento presunçoso e hostil; 

- sentimento de aumento de energia ou bem-estar; 

- sociabilidade eufórica; 

desatenção;

- busca por atividade hedônicas a despeito dos prejuízos evidentes;

- aumento de interesse em aventuras ou uso de álcool e drogas e atividades novas ou gastos excessivos; 

Ainda segundo o especialista, os sintomas devem ter duração de pelo menos uma semana. Como todo diagnóstico psiquiátrico, requer descartar causas orgânicas (hipertireoidismo, uso de corticoide, tumor ou vasculopatia cerebral, intoxicação por drogas psicoestimulantes, etc).

Veja como funcionou o estudo

Os cientistas localizaram no banco de dados da TriNetX todos os pacientes que tiveram diagnóstico positivo de Covid após 20 de janeiro de 2020 e que ainda estavam vivos em 13 de dezembro. 

O estudo analisou o que ocorreu com esses pacientes nos seis meses seguintes. Só foram incluídos os com mais de 10 anos. Foram identificados 236.379 pacientes, sendo 190.077 não hospitalizados e 46.302 hospitalizados.

Destes, 8.945 foram internados em UTIs. Esses pacientes com Covid foram comparados com um grupo de 105.579 pacientes diagnosticados com influenza e outros 236.038 diagnosticados com qualquer tipo de infecção respiratória que nunca tiveram Covid.

A comparação entre esses três grupos é importante, pois os cientistas tinham como objetivo determinar o risco adicional de o paciente ser diagnosticado com doenças neurológicas ou psiquiátrica, comparado com pessoas que não tiveram Covid. 

Os resultados mostraram que 33,62% dos pacientes diagnosticados com Covid tiveram um diagnóstico de doença neurológica ou psiquiátrica nos seis meses seguintes. Sendo esse número 38,73% nos pacientes internados e 46,42% nos que estiveram nas UTIs.

Esses resultados demonstram que, para cada pessoa que a Covid mata, 33 pessoas entre as que se curam terão diagnósticos de doenças psiquiátricas ou neurológicas nos seis meses seguintes.