Saúde

"Precisamos combater o etarismo presente na sociedade", diz geriatra

Na entrevista especial deste domingo (19), Gabriela Bortolon, médica geriatra, fala sobre os desafios da área e alerta que é preciso mais geriatras para dar conta de uma população que vive cada vez mais tempo

Foto: Arquivo Pessoal/Arte – Folha Vitória

Uma coisa é indiscutível. O fato de como os avanços na medicina e na qualidade de vida estão permitindo que as pessoas vivam por mais tempo. A conscientização sobre hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada e a prática regular de exercícios, também contribui para uma vida mais longa e com mais qualidade.

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Porém, quando falamos em longevidade, não temos como deixar de mencionar seus inúmeros desafios. E é exatamente aqui que surgem uma série de questionamentos.

– Como garantir uma boa saúde física e mental ao longo dos anos?

– É possível encontrar um propósito na vida já em fases mais avançadas? 

– Será que eu estou me preparando corretamente para o futuro?

– Afinal, como alcançar a longevidade? 

Para responder essas e outras perguntas, além de falar sobre os desafios, tratamentos, quando procurar um médico geriatra, a reportagem especial deste domingo (19), conversou com a médica geriatra Gabriela Bortolon. Confira a entrevista:

1. O que é a geriatria?

Gabriela Bortolon – É a especialidade médica que se integra na área da Gerontologia com o instrumental específico para atender aos objetivos da promoção da saúde, da prevenção e do tratamento das doenças, da reabilitação funcional e dos cuidados paliativos.

2. Envelhecemos desde que nascemos. Quando do vemos buscar o acompanhamento de um geriatra? Somente na 3ª idade, ou antes?

Sim. Envelhecemos desde que nascemos. Idealmente, nós devemos procurar um geriatra em torno do final da 4ª década de vida, em torno dos 50 anos de idade já se pode procurar um geriatra. Por quer aí que a gente tem a possibilidade de aparecer doenças crônicas relacionadas ao processo de envelhecimento.

Então, o ideal mesmo, é que se procure até antes disso. Eu tenho pacientes que eu atendo que têm já 40 anos, 45 anos e que querem envelhecer de uma maneira saudável, autônoma, com independência. Então, a escolha de procurar um geriatra depende muitas vezes da demanda do paciente. Tem pacientes que têm preconceito também de procurar um geriatra.

O ideal é procurar um geriatra aos 45, 50 anos de idade. Porque é onde a gente consegue trabalhar com a prevenção, principalmente. Mas não se signifique que você possa procurar um geriatra quando já tiver com 60, 70, 80, 90 anos por que tem muitos idosos que chegam numa faixa etária mais avançada e chegam bem. Mesmo sem o médico!

Provavelmente essa pessoa idosa já tem um estilo de vida interessante, bom, tem um autocuidado preservado. Mas assim, procurar um geriatra vai ajudar a envelhecer com menos incapacidades, com mais autonomia, a gente tenta prevenir a questão das demências, das doenças cardiovasculares, a gente busca a prevenção das principais neoplasias que acontecem nessa faixa etária.

3. Qual a importância de ter o acompanhamento de um geriatra? 

Então, ´e fundamental você ter um acompanhamento com um médico geriatra e a gente vai individualizar o tratamento, o acompanhamento. 

Então, não será para todas as pessoas que você precisa passar a cada três meses, mas a gente faz estratégias de programa de acompanhamento para que a pessoa idosa não descompense. Não precise procurar um pronto atendimento, ou seja, hospitalizado.

A gente trabalha muito nessa questão de prevenção mesmo de doenças agudas. Ter um médico geriatra é ter um parceiro para ter mais saúde, ter mais qualidade de vida.

4. É ele quem deve orientar o paciente quando e quais especialistas procurar?

O médico geriatra é o que vai gerenciar os problemas de saúde que envolve a pessoa idosa. Ele é um médico que vai realmente traçar estratégias não só preventivas, mas também com enfoque de reabilitação funcional e trazer uma comunicação mais adequada com os outros médicos de outras especialidades, mas sempre gerenciando o cuidado que essa pessoa idosa deve ter.

Não significa que o indivíduo idoso não possa ter outros médicos acompanhando, mas o médico geriatra deve ser o coração dos cuidados da pessoa idosa e obviamente o geriatra vai indicar, se necessário, ter acompanhamento com outro especialista e a gente faz essas estratégias de comunicação mesmo com o paciente, ‘ó, você deve procurar um oftalmologista, você deve procurar um ortopedista, um cardiologista, enfim, então eu acho que um médico geriatra ele acaba se preocupando muito com a saúde do idoso. 

E avalia muito a questão biopsicossocial que envolve essa pessoa idosa para que fique bem, não só ter uma saúde melhor, mas também preservando essa funcionalidade, essa autonomia que a gente quer que esse idoso tenha. Tentar promover o autocuidado é importantíssimo.

5. Como garantir, proporcionar uma longevidade adequada? Saudável!

Para que uma pessoa idosa possa ter uma longevidade adequada, não somente esse indivíduo deve procurar um médico especialista, mas também é muito mais amplo, né? 

Um envelhecimento saudável envolve políticas públicas atuantes por que nada adianta ter uma individualização no tratamento e você não ter disponibilidade de geriatra para toda a população, mas é muito importante você ter políticas públicas adequadas para que as pessoas idosas possam ter acessibilidade à saúde.

Campanhas de vacina, medidas preventivas, sempre colocando nas mídias sociais da importância de buscar prevenção, promoção da saúde, transporte adequado, hospitais que sejam também capacitados para atender essa população que envelhece, os profissionais da área da saúde também precisam estar capacitados e eu acho que é muito disso.

A gente precisa combater o etarismo que é tão presente na nossa sociedade, evitar o preconceito contra a pessoa idosa, respeitando esse indivíduo que é tão, hoje, ativo na sociedade. 

A pessoa idosa que ainda que estar inserida no mercado de trabalho, quer se manter ativa, produzindo até financeiramente, podendo contribuir para os recursos da família. Hoje os idosos estão muitos ativos, então a gente precisa preservar esse tipo de autonomia, funcionalidade deles. 

É muito mais do que procurar um geriatra no consultório. As políticas de saúde pública que envolve os cuidados dessa pessoa que está envelhecendo deve ser bem assertiva mesmo, e a gente estimular sempre a socialização entre as pessoas idosas, exercícios físicos ao ar livre, ter espaços de convivência com eles integrando outras pessoas, destacou a médica da Medsênior. 

6. Quais os maiores desafios, atualmente, na área da geriatria?

Um dos maiores desafios é justamente quebrar o paradigma de que você deve procurar o geriatra somente quando tiver envelhecido, tiver já se sentindo mais velho. Justamente, um dos maiores desafios, é buscar um geriatra como médico de referência nos cuidados dessa pessoa que está buscando o envelhecimento saudável e ativo.

Buscando prevenção de várias doenças que estão presentes com o processo de envelhecimento, sejam as demências, as neoplasias, as doenças cardiovasculares, aí entram as síndromes geriátricas também que a gente inclue a síndrome da fragilidade, as quedas, as incontinências.

Outro desafio é justamente, por ser a geriatria, uma das especialidades médicas mais novas, quando se compara as outras, é fazer com que essa pessoa que já é idosa busque o geriatra o quanto antes e isso seja algo natural: ‘estou indo ao meu geriatra por que nós precisamos ser o médico de referência da pessoa idosa. Nós falamos que o médico cuida da pessoa idosa é o geriatra.

Não estou excluindo os outros médicos, mas nós somos o coração mesmo dos cuidados, que a gente fala.

7. Ainda existe alguma resistência (ou preconceito mesmo) de se procurar um geriatra?

Acho que atualmente as coisas estão mudando, houve uma mudança de paradigma, digamos, de que procurar um geriatra hoje caiu no gosto da população. As pessoas têm procurado mais e mais precocemente mesmo, não apenas com 70, 80, 90 anos. Muitas vezes a gente começa a cuidar dos avós, depois vem os filhos e depois vem os netos. 

E aí a gente cuida de toda a família. Tem coisa melhor? É bom demais por que a gente sabe lidar com as questões sociais, biopsíquicas. Acho que é maravilhoso ser geriatra e as pessoas tão querendo buscar um geriatra, mas ainda não é uma realidade para toda a população por que é uma especialidade relativamente escassa com poucos profissionais atuando.

Mas é uma realidade quando a gente pensa no envelhecimento populacional do Brasil e no aumento da expectativa de vida. A procura de um geriatra, hoje, é uma realidade e que todo mundo precisa se preocupar, que são dados que vem aí alarmantes e a gente precisa de mais médicos especialistas, mais geriatras para dar conta do recado, digamos.

8. Tratamentos e exames cada vez mais modernos contribuem para a longevidade? 

Cada vez mais nós temos novidades na área da medicina através de tecnologias que são usadas a favor do processo de envelhecimento. A gente fala que existe a gerotecnologia, hoje é um termo que se usa muito. São tecnologias voltadas para o indivíduo idoso.

Tem dispositivos que são usados para antiquedas, esses smartphones também que podem ser usados para ajudar na educação, no manejo que eles precisam. Eles também buscam essa tecnologia para usar no dia a dia e os avenços não só nos tratamentos, na área da oncologia, da cardiologia. Asnovas perspectivas na área da demência que a gente deve receber nos próximos anos.

Os exames também (estão) cada vez mais atualizados, mas tecnológicos, digamos, biópsia líquida para a gente conseguir detectar os principais cânceres que acontecem com a pessoa que está envelhecendo. então tem muita coisa para vir aí e que já está vigente. 

9. O que é preciso fazer para aumentar as chances de uma vida longa, ativa e autônoma?

Vida longa, ativa e saudável, você precisa ter um estilo de vida saudável durante toda a sua vida.

Não é esperar fazer 60 anos para começar a se alimentar bem, ou iniciar uma atividade física, ou fazer um curso novo. Mas você ter a percepção de um autocuidado presente sempre na sua vida desde a infância até a vida adulta e o envelhecimento.

Fazer os exames preventivos adequados para a sua faixa etária, realizar todas as vacinas orientadas pelo médico, ter uma boa noite de sono, se alimentar bem. Principalmente uma alimentação rica em vegetais, verduras, frutas, alimentos mais frescos, menos enlatados. Falamos que precisamos descascar mais e desembalar menos.

Evitar o estresse, a gente precisa ter uma saúde mental preservada para o nosso corpo ficar bem. Nosso físico ficar bem. Evitar o uso de álcool em excesso, não fumar, ou abandonar o tabagismo o quanto antes e outros vícios, drogas ilícitas, obviamente não usar.

Um dos pontos-chave é você tentar se manter ativo socialmente. Sempre ter uma rede de amigos, uma rede familiar consolidada, evitar o isolamento. Acho que uma das chaves para o envelhecimento bem sucedido é você sair para a sociedade, criar relacionamentos saaudáveis. Isso é muito importante.

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