“Como mentir com estatística”, obra de Darrell Huff, apresenta como os dados podem ser usados, de forma legítima, para revelar um cenário que não condiz com a real situação. Na obra, o autor revela como números aparentemente fortes se revelam frágeis, e, dentre as estratégias utilizadas para obter esse resultado, está o uso inapropriado da média. Estatística é uma área ampla que abrange números, média e vários indicadores.
Alguns subtefúrgios envolvem o uso de um tipo de média diferente (aritmética, mediana ou modal) de acordo com a situação, já que o conceito tem um sentido flexível, utilizado com frequência por pessoas que desejam influenciar a opinião pública. Assim, pode-se afirmar que a renda média de um bairro é de 15 mil reais por ano (aritmética, obtida somando todas as rendas e dividindo o resultado pelo total de famílias), ao mesmo tempo em que dita que esse número é de R$ 3,5 mil (mediana, ou seja, metade dessas famílias recebe mais do que este valor por ano e a outra metade, menos do que isso). Ou seja, bastam três milionários para elevar imensamente a renda total e, consequentemente, a média aritmética.
A média pode, portanto, ser usada para tornar o cenário melhor do que ele efetivamente é. Nem sempre isso é feito, obviamente, com o objetivo claro de maquiar indicadores; por isso sempre é prudente olhar as estatísticas com cuidado, observando qual média está sendo usada e dentre qual público foi obtida. Diante da indisponibilidade de tais dados, convém procurar ampliar o estudo para evitar uma visão distorcida da realidade.
O valor dos números absolutos
Veja os números do analfabetismo no Brasil. O Censo 2022 mostra que a taxa de alfabetização no país chegou a 93%. Pode ser comemorado? Ainda não. Efetivamente, o índice vem melhorando, mas não de maneira uniforme em todo o país. Há cidades em que a taxa se aproxima de 100%, como São João do Oeste (SC), e há outras, como Alto Alegre (RR), onde apenas 36,8% dos habitantes sabem ler e escrever.
Enquanto na região sul o índice alcança 97% dos habitantes alfabetizados, no nordeste esse percentual fica em 86%. Se o olhar se detém nos municípios, é na região sul que se localizam quatro entre as cinco cidades mais alfabetizadas entre os municípios com até dez mil habitantes; as cinco mais alfabetizadas entre cidades com 10 a 50 mil moradores; três em cada cinco daquelas com 100 a 500 mil habitantes e quatro em cada cinco acima de meio milhão de moradores, incluindo as três capitais sulistas.
Por outro lado, as cinco cidades com os piores índices de analfabetismo se localizam na Região Nordeste, independentemente do número de habitantes. Talvez para fugir do perigo da média é que o pesquisador Pedro Fernando Nery tenha escrito o livro “Extremos: um mapa para entender as desigualdades no Brasil”, em que contrapõe as cidades com os melhores e os piores índices em vários indicadores sociais.
Assim, é possível conhecer a realidade de Pinheiros, área de São Paulo líder em desenvolvimento humano, com habitantes que usufruem de altas renda e escolaridade e elevada qualidade de vida; assim como Ipixuna, no Amazonas, que possui a pior colocação no índice, local onde a população não dispõe de estradas, voos comerciais, corpo de bombeiros, rede de coleta de esgoto e creches. O perigo da média é exatamente esse: ignorar a realidade abaixo do indicador, em que os números altos, responsáveis por sua elevação, não ajudam a melhorar a vida dos habitantes; pelo contrário: acabam selando sua manutenção.
Senso crítico
Huff, na obra que abre este artigo, indica algumas formas de desafiar as estatísticas: procurar entender quem está propagando os números e o quanto esse agente é imparcial; compreender qual foi a amostra utilizada e como ela foi selecionada – o que afeta completamente sua confiabilidade (algo muito útil com a proliferação de levantamentos via enquete na internet); saber quais dados não constam no relatório e que podem revelar muito sobre o estudo; questionar se faz sentido a descoberta, principalmente em se tratando de correlação, pois nem sempre uma ação que precede outra é a sua causa. Resumindo: senso crítico sempre é necessário na análise de dados.
Índices e indicadores são importantíssimos para a elaboração de políticas públicas, que têm o potencial de mudar a realidade local, atacando os fatores que causam tais situações. No entanto, é necessário desafiar a média e se aprofundar nos números, para não cair na falácia de que os avanços são suficientes, como assim o índice revela. Porque, se somos duas pessoas e temos dois sanduíches, na média cada qual comeu um. Mas pode ser que um de nós tenha se apossado dos dois e o outro passou fome. E isso, no Brasil, é mais comum do que se imagina.
Cintia Dias
Jornalista, publicitária, mestre em administração, especialista em comunicação, sustentabilidade e marketing e colaboradora fixa da coluna ESG.